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| “O grande pregador da Luz Radiante é agora levado pela Fonte da Luz à Luz sem ocaso”. |
Originalmente, o segundo domingo da quaresma era dedicado a São Policarpo de Esmirna. Mas após a glorificação de São Gregório Palamas, em 1368, uma segunda comemoração foi acrescentada ao calendário nesta data, que marca um "Segundo Triunfo da Ortodoxia". Essa comemoração possui um significado histórico e outro espiritual [místico e teológico].
Gregório nasceu em 1296 em Constantinopla, filho de um proeminente nobre e dignitário da corte do Imperador Andronico II Paleólogos [1282-1328]. Com a morte precoce de seu pai, o próprio Imperador tomou para si a tarefa de educar o órfão. Possuindo enorme habilidade e inteligência, Gregório dominou todas as disciplinas filosóficas da alta educação medieval.
O Imperador tinha a esperança de que ele se dedicasse aos assuntos do governo, mas, aos vinte anos, Gregório abandonou o mundo e rumou para o Monte Athos, tornando-se noviço no mosteiro de Vatopedi sob a filiação do Ancião São Nicodemo. Ali foi tonsurado e dedicou-se à ascese. Um ano depois, o Bem Aventurado Apóstolo São João o Teólogo apareceu a ele em uma visão, e lhe prometeu proteção espiritual. A mãe de Gregório, bem como suas irmãs, também abraçaram o monasticismo.
Após a entrada de São Nicodemo no Reino dos Céus, Gregório passou oito anos de batalha espiritual sob a filiação do Ancião Nicéforo, e, após a sua morte, transferiu-se para a Lavra de Santo Atanásio, onde fez parte do coro da Igreja. Depois de três anos isolou-se em um pequeno skete de Glossia, lutando por um grau ainda mais elevado de perfeição espiritual.
O líder de seu mosteiro lhe ensinou o método da oração e atividade mental incessante, que havia sido cultivado por monges desde o quarto século, remontando a ascetas como Evágrio Pontico e São Macário do Egito. Bem mais tarde, no século XI, São Simeão o Novo Teólogo providenciou instruções detalhadas sobre a oração mental, logo seguida pelos ascetas da Sagrada Montanha Athos, chamado doravante de ''O Jardim da Panagia [''toda santa'' ou ''virgem'']''. A experiência da oração do coração requer solidão e quietude, em uma prática chamada de "Hesicasmo" [do grego 'hesíquia', que significa silêncio]. Durante sua estada em Glossia, Gregório se tornou inteiramente imbuído do espírito do Hesicasmo, adotando-o como parte essencial de sua vida.
Em 1326, por causa da ameaça de invasão turca, ele e sua comunidade se mudaram para Tessalônica, onde Gregório foi ordenado como sacerdote. São Gregório combinava seus deveres sacerdotais com uma vida de eremita. Passava cinco dias por semana em silêncio e oração, e apenas no sábado via o seu rebanho, começava a celebração dos ofícios divinos e pregava sermões.
Para aqueles que se faziam presentes na Igreja, seus ensinamentos sempre evocavam ternura e lágrimas. De vez em quando visitava encontros teológicos junto a jovens educados das cidades, e após um destes estudos realizado em Constantinopla, encontrou um lugar adequado para a solidão, bem próximo de Tessalônica, na região de Bereia. Logo se juntou a uma pequena comunidade de monges solitários e a guiou por cerca de cinco anos.
Nos anos 1330, acontecimentos importantes transformaram Gregório em um dos mais significativos apologetas da Ortodoxia, e deram-lhe grande renome como defensor e mestre do hesicasmo. No início desta década, o erudito monge Barlaão chegou a Tsar'grad vindo da Calábria, na Itália. Ele era autor de tratados de lógica e astronomia e um orador muito habilidoso, recebendo em vista disto uma cadeira universitária na cidade imperial.
Ali, começou a expor as obras de São Dionísio o Areopagita, cuja teologia 'apofática' era fundamental tanto para a Igreja Ortodoxa quanto para os cismáticos ocidentais. Logo Barlaão visitou o monte Athos, e lá veio a conhecer a vida espiritual dos hesicastas. Afirmando que era impossível conhecer a essência divina, declarou o método da oração mental um erro herético. Rumando dali para Tessalônica, e depois para Constantinopla, Barlaão entrou em disputas com vários monges e tentou demonstrar a natureza material e criada da Luz do Monte Tabor [ ou seja, da Transfiguração], que os hesicastas afirmam contemplar. Em suas disputas, Barlaão ridicularizava os ensinamentos dos monges sobre os métodos de oração e sobre a Luz Incriada vista pelos hesicastas.
A pedido dos monges athonitas, São Gregório replicou o irmão com admoestações verbais em primeiro lugar. Vendo a inutilidade dos seus esforços, colocou seus argumentos por escrito, e produziu as "Tríadas em defesa dos Santos Hesicastas", em 1338. Por volta de 1340, os ascetas da Sagrada Montanha, com a assistência do santo, compilaram uma resposta geral aos ataques de Barlaão, o chamado "Tomo Hagiorita".
No Concílio Ecumênico convocado em Constantinopla em 1341, realizado em Hagia Sophia, São Gregório debateu com Barlaão, se focando sobre a natureza da Luz do Monte Tabor. Em 27 de maio o Concílio aceitou sua posição, a saber, de que Deus, inapreensível em Sua Essência, revela-se por meio de Suas Energias, que são dirigidas diretamente ao mundo e aptas a serem percebidas, como a Luz do Monte Tabor, mas que não são nem materiais nem criadas. Os ensinamentos de Barlaão foram condenados como heréticos, e ele mesmo foi anatematizado e voltou à Calábria.
Mas as disputas entre hesicastas e barlaamitas estavam longe de acabar. Um discípulo de Barlaão, o monge búlgaro Akyndinos, escreveu uma série de tratados chamados "aquele que inflige danos", que sustentavam a opinião herética e possuía a simpatia do Patriarca João XIV Kalekos [1341-1347] e do Imperador Andronico III Paleólogos [1328-1341]. Desse modo, o Patriarca trancafiou São Gregório por quatro anos.
Em 1347, quando João XIV foi substituído no trono episcopal por Isidoro [1347-49], São Gregório não apenas foi libertado como tornou-se Arcebispo de Tessalônica. Em 1351, um novo concílio realizado em Blachernae solenemente reafirmou a Ortodoxia de seus ensinamentos.
Mas o povo de Tessalônica não aceitou imediatamente São Gregório, e ele teve de viajar para diversos lugares. Numa dessas viagens, seu navio foi capturado por turcos. Mas mesmo no cativeiro, São Gregório pregou para os cristãos que também eram prisioneiros, e até mesmo para seus captores muçulmanos, que ficavam atônitos pela sabedoria de suas palavras, e com os quais fez amizade após algumas conversas teológicas, que se concluíram com as palavras do grande santo, ''não estamos longe de nos entender''.
Alguns muçulmanos, despreparados para o que ouviam, agrediram o santo, e só não o mataram por causa do grande resgate que esperavam obter por ele. Um ano depois, São Gregório pôde retornar à Tessalônica.
Nos três anos anteriores à sua morte, São Gregório realizou diversos milagres, curando muitas pessoas. Na véspera de seu repouso, obteve uma visão de São João Crisóstomo. Com as palavras "Às alturas! Às alturas", adentrou o Reino dos Céus em 14 de novembro de 1359. Em 1368 sua santidade foi reconhecida formalmente pelo Concílio de Constantinopla, realizado sob o Patriarca Filoteu [1354-55, 1364-1376].
A exposição teológica da diferença entre essência e energias divinas, bem como do método hesicasta para a obtenção da theosis, como do próprio significado místico do termo, estão entre as maiores contribuições doutrinárias legadas à Igreja de Cristo, e protegeu-a contra o racionalismo e erros metodológicos e teológicos advindos da filosofia escolástica, muito reputada então pela síntese realizada por Tomás de Aquino. São Gregório Palamas foi também grande devoto da Toda Santa e Pura Mãe de Deus, que lhe garantiu proteção e assistência em toda sua vida, por meio inclusive de aparição direta ao santo.
O grande tema espiritual da comemoração do Domingo de São Gregório Palamas é o esforço ascético conjugado à fé, grande sinergia que possibilita ao homem à realização do ensinamento dos Santos Padres, de que "Deus se tornou homem para que o homem se fizesse deus''. Há a lembrança dos jejuns e outras práticas como formas de receber e vivificar a luz interior, integrando-a em todo o ser do cristão a fim de obter a salvação.

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