terça-feira, 6 de março de 2018

A CONTEMPLAÇÃO TEOLÓGICA DE NOSSA PARALISIA ESPIRITUAL


– Homilia do II Domingo da Grande Quaresma – 

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Queridos irmãos, toda riqueza litúrgica da Ortodoxia da Igreja não se distancia da Santa e Divina Teologia em meios aos Domingos da Grande Quaresma celebrados por cada paróquia ao redor do mundo.
Depois dos três Domingos que preparam os fiéis para entrarem na Grande Quaresma (Domingo de Zaqueu; Domingo do fariseu e o publicano; e Domingo do filho pródigo), a Igreja celebra o Domingo da Ortodoxia, através do qual cremos firmemente que a Divina Teologia afasta definitivamente a fé do povo de Deus de toda dicotomia teórica e de todo dualismo filosófico.

Nele, a Igreja celebra a vitória da fé apostólica mediante o triunfo da veneração aos Santos Ícones como resgate definitivo da centralidade do Dogma da Encarnação do Verbo contra toda adoração espiritualista, esotérica e contrária à dimensão sacramentalmente misteriosa de união entre as realidades visíveis e invisíveis na Pessoa de Cristo.

Isso fica evidente no próprio Evangelho lido nesse I Domingo da Grande Quaresma, onde Jesus diz a Natanael: “Em verdade te digo que, de agora em diante, vereis os Céus abertos e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do Homem”.
Sem dúvida, a obediência da Igreja às ordens divinas acerca da instituição da Divina Liturgia, desde o Sinai, não só inclui as imagens como parte integrante e indispensável do culto a Deus, mas também dá acesso a todo fiel ortodoxo à visão sobrenatural do Santo Profeta Isaías (700 anos antes de Cristo) e do Santo Apóstolo João (100 anos depois de Cristo), os quais vêem os Céus abertos, testemunhando assim a Divina Liturgia inalterável pelos séculos dos séculos.

A presença sacramental e memorial dos Santos Ícones na Divina Liturgia sela, portanto, a visão daqueles que contemplando “os céus abertos” – quer no Antigo Testamento, quer no Novo Testamento – representam misticamente o sonho da escada de Jacó cumprido no Evangelho revelado a Natanael: “de agora em diante, vereis os Céus abertos!”. Eis que “é chegada a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade”.

Tão objetiva teologia, entretanto, não exclui, mas inclui a subjetividade dos verdadeiros adoradores. A adoração da Igreja não pode ser objetivamente modificada sob pena de traição da instituição da Eucaristia, nem os verdadeiros adoradores podem ser subjetivamente impedidos da experiência do Espírito sob pena de supressão da experiência do Pentecostes.

Em poucas palavras, a defesa da fé apostólica feita por São Gregório Palamas contra a teologia racional do herege Barlaam estava bem longe de ser uma mera querela bizantina, mas significava o que há de mais decisivo para a adoração da Igreja e para a vida cristã como um todo.

Como poucos em seus dias, Barlaam lamentavelmente figurava entre os mais lúcidos e coerentes representantes da ocidentalização da fé empreendida pelo romanismo papal crescente após a ruptura do Ocidente.

A estadia de Barlaam no Monte Athos, parece mesmo que com fins de confundir os monges, disseminava uma espécie de versão aristotélica da fé cristã recém-autorizada pelo papado – a teologia tomista, ou o tomismo, como foi mais conhecido.
Sim! O tomismo não mais assumia a antiga fé da Igreja que experimentara por três séculos a adoração à Santíssima Trindade sem qualquer necessidade de formulação dogmática, sem grandes explicações filosóficas ou, mais especificamente falando, sem qualquer conceituação teórica oficial ou oficializada unilateralmente por uma sé apostólica em detrimento das demais.

Em poucas palavras, a Santíssima Trindade foi adorada como experiência litúrgica da Igreja antes de ser formulada dogmaticamente como resposta da Igreja às heresias que a questionavam.

Contemplar misticamente o Domingo de São Gregório Palamas é nada mais, nada menos, do que assumir a antiga fé apostólica de que o dogma é uma realidade mística, e não uma mera formulação dogmática imposta pelos concílios cristãos aos hereges com vistas à extinção das falsas doutrinas no seio da Igreja.

Para a Ortodoxia da Igreja, Dogma não é um expediente institucional repressor, mas uma experiência mística pneumática. Não se trata de conhecimento acadêmico, institucionalmente autorizado, pura e simplesmente, mas de experiência do Espírito Santo vivida por toda a Igreja em todos os lugares e em todos os séculos.
São Gregório não deixa de assumir a máxima tomista, propagada por Barlaam, de que Deus não pode ser experimentado em Sua essência, mas isso não o fez desconsiderar a experiência viva de oração interrupta dos monges do Monte Athos e de tantos outros fiéis que, naqueles dias e ao longo dos séculos, sempre experimentaram a presença viva do Espírito Santo como ocorrera singularmente sobre Cristo e os Apóstolos no Monte Tabor em meio à Santa Transfiguração.

Ele chamou tão gloriosa e vívida experiência cristã de “as Energias Incriadas do Espírito Santo”. Temos, portanto, acesso às Energias Incriadas, e não à Essência Eterna, do Espírito Santo. Negar o acesso às Energias Incriadas em nome de salvaguardar a doutrina da Inacessibilidade à Essência Divina, é contrariar a experiência crente em todos os séculos e suprimir a experiência da Igreja na Divina Liturgia.

Queridos irmãos, é por isso que a fé ortodoxa é viva! Nossa liturgia não nos é enfadonha, nem cai em mero ritualismo, mas é tão amada por todos nós! 
São Gregório Palamas, a quem os concílios romanistas posteriormente declararam como herege, repassou o mais precioso dos legados da genuína fé apostólica – a experiência da graça do Espírito Santo. 
Para a genuína Ortodoxia da Igreja, tão mística experiência crente não apenas não é uma impossibilidade, mas é, de fato, uma realidade viva e contínua.

Eis, o ensinamento alegórico do Evangelho de hoje! Eis, a ortodoxia palamita! Eis, as Energias Incriadas do Espírito Santo! Eis, o Deus-Trindade  inacessível em sua Essência Eterna e, paradoxalmente, acessível em suas Energias Incriadas.

Como proclama o Evangelho de hoje, Cristo Deus, não somente desde os Céus, mas de agora em diante perdoa pecados sobre a terra, transformando assim nossa paralisia espiritual mediante a experiência sacramental da graça do Espírito Santo, para a qual devemos empreender todo nosso esforço ascético, à semelhança daqueles quatro homens do Evangelho que chegam mesmo a subir até o cume da casa do Senhor, de onde descem o paralítico por Ele sarado.

Ascese e Liturgia!!! Eis, o binômio capaz de representar misticamente os querubins e nos fazer cantar a Vivificante Trindade, à medida de nosso afastamento de todo pensamento mundano a fim de acolhermos o Rei do Universo...

Pe. Jairo
Igreja Ortodoxa Sérvia no Brasil
Paróquia de São João Crisóstomo
2018
Comemoração dos Santos Apóstolos Arquipo, Filemon e Ápia

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