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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sinaxe dos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel e todos os incorpóreos celestes.

21 de Novembro de 2018 (CC) / 08 de Novembro (CE).

Sinaxe dos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel e 
todos os incorpóreos celestes.


É um dos anjos superiores e está intimamente relacionado com o destino da Igreja. As Escrituras Sagradas nos ensinam que, para além do mundo físico, há um mundo espiritual habitado por seres espirituais, bons e sábios, e que se chamam anjos. Em grego a palavra “anjo” significa Mensageiro. São assim denominados nas Escrituras Sagradas porque Deus, através deles, comunica sua vontade aos homens. Como é a vida dos anjos no mundo espiritual onde habitam, e em que consiste sua missão? Sabemos muito pouco e, ademais, não estamos em condições de compreende-lo. O mundo angelical é muito diferente do nosso mundo material, não se aplicando as noções de tempo e espaço no sentido como entendemos em nosso mundo, bem como, as outras condições existenciais. A prefixo «arc» em «arcanjo», usado para alguns anjos, denotam sua superioridade em relação aos demais seres angelicais. O nome Miguel, em hebraico, significa «Quem como Deus!» Sempre que nas Escrituras é dito sobre a aparição de anjos aos homens, só de alguns deles são mencionados seus nomes – possivelmente, porque tenham recebido missão especial de consolidar o Reino de Deus na Terra. Entre estes, os Arcanjos Miguel e Gabriel, mencionados nos livros canônicos da Escritura Sagrada, e também os dos arcanjos Rafael, Uriel, Sariel, Jerahmeel e Rachel, nos livros que não fazem parte do cânon das Escrituras. (Canon ou catálogo dos livros sagrados declarados autênticos pela Igreja no século V a. C. Os livros sagrados escritos posteriormente não entraram no cânone e, portanto, são chamados de «não-canônicos») Geralmente, o arcanjo Gabriel aparece como mensageiro de grandes e alegres eventos relacionados ao povo de Deus (Dan 8,16-9,21, Lc 1,19-26). No livro de Tobias o arcanjo Rafael diz de si mesmo: «Eu sou um dos sete anjos que elevam as orações dos santos e estão sempre de pé diante do Senhor». (Tb 12, 15). Daí a certeza de que lá no céu há sete arcanjos, um dos quais é o arcanjo Miguel.

Nas Escrituras Sagradas o arcanjo Miguel é mencionado como o «Príncipe dos espíritos celestiais». Ele aparece como um grande lutador contra o diabo e toda a iniqüidade entre os homens. Daí o seu nome na Igreja de «Príncipe dos espíritos celestiais». Assim o arcanjo Miguel se apresentou a Josué, como ajuda na conquista da Terra Prometida. Ele apareceu ao profeta Daniel durante a queda do reino da Babilônia, e quando teve início a implantação do reino do Messias. A Daniel lhe foi profetizado sobre a ajuda de Deus ao seu povo através do arcanjo Miguel nas futuras perseguições no reinado do Anticristo. No livro do Apocalipse, o arcanjo Miguel é apresentado como o grande defensor do povo de Deus contra o diabo e os outros anjos rebeldes. « E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele» Ap 12,7-9. O Apóstolo Judas faz menção ao arcanjo Miguel como o adversário do diabo. (Jo.5: 13, Dan. Cap.10, 12:1; Ju. 9; Ap.12 :7-9, Lc.10: 18).

Alguns dos Pais da Igreja pensam que, segundo as Escrituras Sagradas, o arcanjo Miguel participou noutros importantes acontecimentos na vida do povo de Deus, mas não mencionam precisamente quais foram. Por exemplo, identificam-no com a misteriosa coluna de fogo que seguia diante do povo hebreu durante a sua fuga do Egito, e que fez afogar o exército do Faraó e derrotar o grande exército assírio que cercava Jerusalém, no tempo do profeta Isaías. (Ex 33, 9; 14,26-28; 2 Reis 19,35).


Os Anjos de Guarda:


Os Anjos são antes de tudo os mediadores das mensagens da verdade Divina, iluminam o espírito com a luz interior da palavra. São também guardiões das almas dos homens, sugerindo-lhes as directivas Divinas; invisíveis testemunhas dos seus pensamentos mais escondidos e das suas acções boas ou más, claras ou ocultas, assistem os homens para o bem e para a salvação. São Grégorio Magno diz, que quase cada página da Revelação escrita, atesta a existência dos Anjos. No Novo Testamento aparecem no Evangelho da infância, na narração das tentações do deserto e da consolação de Cristo no Getsemani. São testemunhas da Ressurreição, assistem a Igreja que nasce, ajudam os Apóstolos e transmitem a vontade Divina. Os Anjos preparam o juízo final e executarão a sentença, separando os bons dos maus e formarão uma coroa ao Cristo triunfante. Eles os Anjos, são mencionados mais de trezentas vezes no Antigo Testamento. Além de todas essas referências bíblicas, que por si só justificam o culto especial que os cristãos reservam aos anjos desde os primeiros tempos, é a natureza destes “espíritos puros” que estimula nossa admiração e nossa devoção.

Dizia Bozzuet : “Os Anjos oferecem a Deus as nossas esmolas, recolhem até os nossos desejos, fazem valer diante de Deus os nossos pensamentos… Sejamos felizes de ter amigos tão prestativos, intercessores tão fiéis, intérpretes tão caridosos.” Fundamentando a verdade de fé, a Igreja nos diz que cada cristão, desde o momento do batismo, é confiado ao seu próprio Anjo Custódio, que tem a incumbência de guardá-lo, guiá-lo no caminho do bem, inspirando bons sentimentos, proporcionando a livre escolha que tem como meta Deus, Supremo Bem.

Arcanjo São Miguel (II):


“Miguel” que significa: “Quem como Deus?” é o defensor do Povo de Deus no tempo de angústia. É o padroeiro da Igreja e aquele que acompanha as almas dos mortos até o céu.

Arcanjo São Gabriel:


“Gabriel” – que significa “Deus é forte” ou “aquele que está na presença de Deus” – aparece no assim chamado evangelho da infância como mensageiro da Boa Nova do Reino de Deus, que já está presente na pessoa de Jesus de Nazaré, nascido de Maria. É ele quem anuncia o nascimento de João Baptista e de Jesus. Anuncia, portanto, o surgimento de uma nova era, um tempo de esperança e de salvação para todos os homens. É ele quem, pela primeira vez, profere aquelas palavras que todas as gerações hão de repetir para saudar e louvar a Virgem de Nazaré: “Ave, cheia de graça. O Senhor é contigo”.

Arcanjo São Rafael:


“Rafael”- que quer dizer “medicina dos deuses” ou “Deus cura” – foi o companheiro de viagem de Tobias. É o anjo benfazejo que acompanha o jovem Tobias desde Nínive até à Média; quem o defende dos perigos e patrocina o seu casamento com Sara. É ele quem tira da cegueira o velho Tobias. É aquele que cura, que expulsa os demônios. São Rafael é o companheiro de viagem do homem, seu guia e seu protetor nas adversidades.

Os Santos Anjos da Guarda:


Os Anjos são antes de tudo os mediadores das mensagens da verdade Divina, iluminam o espírito com a luz interior da palavra. São também guardiões das almas dos homens, sugerindo-lhes as diretivas Divinas; invisíveis testemunhas dos seus pensamentos mais escondidos e das suas acções boas ou más, claras ou ocultas, assistem os homens para o bem e para a salvação. São Grégorio Magno diz, que quase cada página da Revelação escrita, atesta a existência dos Anjos. No Novo Testamento aparecem no Evangelho da infância, na narração das tentações do deserto e da consolação de Cristo no Getsêmani. São testemunhas da Ressurreição, assistem a Igreja que nasce, ajudam os Apóstolos e transmitem a vontade Divina. Os Anjos preparam o juízo final e executarão a sentença, separando os bons dos maus e formarão uma coroa ao Cristo triunfante. Eles os Anjos,são mencionados mais de trezentas vezes no Antigo Testamento. Além de todas essas referências bíblicas, que por si só justificam o culto especial que os cristãos reservam aos anjos desde os primeiros tempos, é a natureza destes “espíritos puros” que estimula nossa admiração e nossa devoção.

Dizia Bozzuet : «Os Anjos oferecem a Deus as nossas esmolas, recolhem até os nossos desejos, fazem valer diante de Deus os nossos pensamentos… Sejamos felizes de ter amigos tão prestativos, intercessores tão fiéis, intérpretes tão caridosos». Fundamentando a verdade de fé, a Igreja nos diz que cada cristão, desde o momento do batismo, é confiado ao seu próprio Anjo, que tem a incumbência de guardá-lo, guiá-lo no caminho do bem, inspirando bons sentimentos, proporcionando a livre escolha que tem como meta Deus, Supremo Bem. No dia 8 de Novembro, data em que a Igreja Ortodoxa comemora a «Sinaxe dos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel e todos os incorpóreos celestes», lembra ao mesmo tempo todos os coros angélicos: os Anjos, os arcanjos, os Tronos, as Dominações que adoram, as Potestades que tremem de respeito diante da Majestade Divina, os céus, as virtudes, os bem-aventurados serafins e os querubins.

domingo, 21 de outubro de 2018

São Lucas 7:11-16



E aconteceu que, no dia seguinte, ele foi à cidade chamada Naim, e com ele iam muitos dos seus discípulos, e uma grande multidão; e, quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e com ela ia uma grande multidão da cidade. E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. E, chegando-se, tocou o esquife (e os que o levavam pararam), e disse: Jovem, a ti te digo: Levanta-te. E o que fora defunto assentou-se, e começou a falar. E entregou-o à sua mãe. E de todos se apoderou o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo.

† † †

COMENTÁRIOS

Ao ver a viúva, o Senhor Jesus... disse-lhe: Não chores. Cristo, esperança de todos os crentes, chama aos que deixam este mundo não de “mortos”, mas de “adormecidos” ao dizer: Lázaro, meu amigo dorme; o Apóstolo Paulo, por seu lado, não quer que estejamos tristes por causa dos que adormeceram. Por isso, se a nossa fé afirma que todos os que creem em Cristo, conforme a palavra do Evangelho, não morrerão jamais, nós sabemos que eles não estão mortos e que nós mesmos não morremos.

É porque, quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os que morreram em Cristo, ressurgirão primeiro. Por conseguinte, que a esperança da ressurreição nos dê coragem, pois voltaremos a ver aqueles que tínhamos perdido. Importa que acreditemos firmemente nele, quer dizer, que obedeçamos aos seus mandamentos, porque com o seu poder supremo ele acorda os mortos mais facilmente do que nós acordamos os que estão dormindo.

Eis o que nós dizemos e, entretanto, não sei por que motivo refugiamo-nos nas lágrimas, e o sentimento do pranto perturba a nossa fé. Ai de nós! A condição do homem é lamentável, e como é vã a nossa vida sem Cristo! Mas tu, ó morte, que tens a crueldade de romper a união dos esposos e de separar os que estão vinculados pela amizade, a tua força está desde já esmagada. Doravante, o teu jugo impiedoso é esmagado por aquele que te ameaçava mediante as palavras do Profeta Oseias: Ó morte, eu serei a tua morte. É por isso que, com o Apóstolo Paulo, lançamos esta provocação: Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? Aquele que te venceu resgatou-nos, entregou a sua querida alma nas mãos dos ímpios, para fazer deles os seus queridos.

Seria muito longo relembrar tudo o que nas santas Escrituras nos deveria consolar a todos. Que nos baste acreditar na ressurreição e erguer os nossos olhos para a glória do nosso Redentor, porque é nele que nós já somos ressuscitados, como a nossa fé nos faz pensar, conforme a palavra do Apóstolo Paulo: Se morremos por ele, com ele também reviveremos.




São Bráulio de Saragoça (séc. VII)

sábado, 20 de outubro de 2018

Evangelho segundo São Lucas 10,13-16.


Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!

Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado os milagres que em vós se realizaram, há muito tempo teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre a cinza.

Assim, no dia do Juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sidónia do que para vós.
E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Até ao inferno é que descerás.

Quem vos escuta, escuta-Me a Mim; e quem vos rejeita, rejeita-Me a Mim. Mas quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».

«Quem vos escuta, escuta-Me a Mim»


Alguém que ouvira o versículo «Oferece a Deus um sacrifício de louvor» (Sl 49,14), pensou: «Todos os dias, ao acordar, irei à igreja e entoarei o hino da manhã; ao final do dia, entoarei o hino da noite; e depois, em minha casa, um terceiro e um quarto hinos. Deste modo, farei todos os dias um sacrifício de louvor que oferecerei ao meu Deus». Fazer isto é bom, mas não te deixe descansado; vê que, enquanto a tua língua fala bem perante Deus, a tua vida não fale mal à sua frente. [...] Toma cuidado e não vivas mal enquanto falas bem.

Porquê? Porque Deus disse ao pecador: «Como recitas os meus mandamentos e tens a minha aliança na boca [, tu que rejeitas as minhas palavras]?» (v. 16-17) Eis o temor com que devemos falar. [...] Vós, meus irmãos, estais em segurança: se ouvirdes dizer coisas boas, é Deus que ouvis, qualquer que seja a boca que fala convosco. Mas Deus não quis deixar de repreender aqueles que falam, com receio de que adormeçam tranquilos numa vida desordenada, afirmando que falam do bem e pensando: «Deus não quererá condenar-nos, pois foi através de nós que quis dizer coisas tão boas ao seu povo». Portanto, vós que falais, quem quer que sejais, escutai o que dizeis; vós que quereis ser ouvidos, ouvi-vos primeiro. [...] Possa eu ser o primeiro a ouvir, possa eu ouvir, e ouvir melhor do que todos, «aquilo que o Senhor Deus diz em mim, pois Ele diz palavras de paz ao seu povo» (Sl 84,9).



Bulle Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África).
Discursos sobre os salmos, Salmo 49, §23

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Bondade e Justiça Humanas Não São Boas Comparadas Com a Bondade e Justiça Divinas.



Quantas coisas são qualificadas de boas no Evangelho! Dá-se o qualificativo de bom à árvore, a um tesouro, a um homem, a um servo: “A árvore boa não pode dar frutos ruins. O homem bom tira do bom tesouro de seu coração coisas boas. Muito bem, servo bom e fiel”. É incontestável que em todos estes casos se trata de uma bondade real, não imaginária. No entanto, se dirigirmos o olhar para a bondade de Deus, nenhum deles poderá tornar-se digno do qualificativo de “bom”. Assim o afirma o Senhor: “Ninguém é bom a não ser Deus”.

Frente a ele, os próprios apóstolos – a quem o mérito de sua eleição lhes situa em muitos aspectos acima da bondade comum dos homens – são declarados maus. Na realidade, a eles se direcionam estas palavras: “Portanto, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas para vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus, dará coisas boas para quem as pede!”

Portanto, se nossa bondade se transforma em malícia ao considerar a bondade celestial, nossa justiça, comparada à justiça divina vem a ser semelhante, como diz Isaías, a um lenço imundo: “Toda a nossa justiça é como um lenço imundo”. E se apelamos para um testemunho ainda mais evidente, eis aqui o que nos dizem os preceitos de vida da Lei: Ela – se afirma – foi dada por anjos, através de um mediador. E dela também diz São Paulo: “Portanto, a Lei é santa; e o preceito é santo, justo e bom”. Porém, a palavra divina proclama que não são bons frente à perfeição evangélica: “Foi-lhes dado preceitos que não são bons, e mandamentos nos quais não encontrarão a vida”. Ouvi ainda a São Paulo, que afirma que toda a glória da Lei se eclipsa ante a luz que reflete o Novo Testamento, até ao ponto de que frente ao esplendor do Evangelho já não merece ser glorificado: O que em outra época foi glorificado, deixa de ser glorificado frente a esta insigne glória.

A Escritura segue esta trajetória e este mesmo estilo, quando, com sinal inverso, coloca na balança os pecados dos homens. Assim, em comparação com os ímpios, justifica aos que pecaram menos, dizendo: “Tu justificaste a Sodoma”. E ainda: “Qual foi o pecado de Sodoma, tua irmã?” E também: “Israel, o infiel, parece justo em comparação da pérfida Judá.”

O mesmo acontece com todas as virtudes enumeradas mais acima. São boas e preciosas em si mesmas, porém obscurecem ante a claridade da “teoria”[1]. É que, por mais que os santos se ocupem em boas obras, muitas vezes estão envoltas em cuidados terrenos que diminuem e retardam da contemplação daquele sublime bem.



São João Cassiano (séc. V).

domingo, 14 de outubro de 2018

Evangelho segundo S. Marcos 9,38-43.45.47-48.




Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim.

Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.

Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar.

Se a tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de pecado, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.

E se um dos teus olhos é para ti ocasião de pecado, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».

«Ele não anda connosco»


«Que digais todos o mesmo, e que entre vós não haja divisões» (1Cor 1,10). As diversas partes da Igreja deixam de estar completas quando uma delas sofre e morre. Se cada Igreja fosse, por si mesma, um corpo completo, haveria numerosas assembleias e reuniões; mas elas formam um só corpo e a divisão destrói a sua unidade. […] Depois de ter denunciado este mal utilizando essa amarga palavra – divisões –, o apóstolo Paulo suaviza a sua linguagem ao acrescentar: «Sede perfeitos no mesmo espírito e no mesmo parecer.» Não se trata apenas de um acordo de palavras, mas de uma união de pensamento e de sentimentos. E, como pode acontecer que as pessoas estejam unidas em determinado ponto, mas divididas noutros, Paulo insiste: «Estai unidos de maneira perfeita» […], sede perfeitos na caridade.

Podemos estar unidos em pensamento e divididos nas ações, ter uma mesma fé sem estar ligados por uma mesma caridade. Era o que se passava em Corinto, onde uns se ligavam a um mestre, outros a outro. Paulo não lhes censura as divergências na fé, mas as diferentes maneiras de agir, as rivalidades humanas […]: «Soube que entre vós há contendas. […] Estará Cristo dividido?» (1Cor 1, 12-13).



São João Crisóstomo (c. 345-407)
presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
3.ª Homilia sobre a 1.ª Carta aos Coríntios.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Evangelho segundo S. Lucas 9,7-9.



Naquele tempo, o tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que Jesus fazia e andava perplexo, porque alguns diziam: «É João Batista que ressuscitou dos mortos».

Outros diziam: «É Elias que reapareceu». E outros diziam ainda: «É um dos antigos profetas que ressuscitou».

Mas Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar. Mas quem é este homem, de quem oiço dizer tais coisas?». E procurava ver Jesus.


«[Herodes] procurava ver Jesus»


Deus está em toda a parte, inteiríssimo, imenso. Em toda a parte está próximo, de acordo com o testemunho que dá de Si mesmo: «Sou um Deus próximo, e não um Deus distante» (Jer 23,23). O Deus que buscamos não mora longe de nós. Habita em nós como a alma no corpo, se formos para Ele membros sãos que o pecado não matou. [...] «N'Ele», diz o apóstolo Paulo, «temos a vida, o movimento, o ser» (At 17,28).

Mas quem poderá seguir o Altíssimo até ao seu ser inexprimível e incompreensível? Quem perscrutará as profundezas de Deus? Quem se arriscará a discutir a origem eterna do Universo? Quem se glorificará de conhecer o Deus infinito que tudo enche e tudo envolve, tudo penetra e tudo transcende, tudo abraça e de tudo Se esconde, Ele que «jamais alguém viu» tal qual é? (1Tim 6,16). Que ninguém tenha pois a presunção de sondar a impenetrável profundidade de Deus, o quê, o como, o porquê do seu ser. Pois isso não pode ser expresso, nem perscrutado, nem penetrado. Crê simplesmente, mas com força, que Deus é como foi e como será, pois n'Ele não há mudança.



Bulle São Columbano (563-615)
monge, fundador de mosteiros
Instrução 1,2-4; PL 80, 231-232.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

“Grande É A Prudência E A Fé Daquele Que Se Aproxima”


Aproximou-se um leproso, dizendo: Senhor, se queres, podes purificar-me. Grande é a prudência e a fé daquele que se aproxima. Porque não interrompe o discurso nem irrompe no meio dos ouvintes, mas espera o momento oportuno; aproxima-se quando Cristo desceu o monte. E lhe roga, não superficialmente, mas com grande fervor, prostrando-se aos seus pés, com verdadeira fé e com uma opinião correta sobre ele.


Porque não disse: “Se o pedes a Deus”, nem: “se oras”, mas: Se queres, podes purificar-me. Tampouco disse: “Senhor, purifica-me”; mas deixa tudo em suas mãos, lhe faz Senhor de sua cura e lhe reconhece a plenitude de poder. Mas o Senhor, que muitas vezes falou humildemente de si e abaixo do que a sua glória merece, o que disse aqui para confirmar a opinião daqueles que contemplavam admirados sua autoridade? Eu quero: fica limpo. Mesmo que o Senhor já tivesse realizado tantos e tão estupendos milagres, em nenhuma parte encontramos expressão semelhante.


Aqui, porém, para confirmar a opinião que de sua autoridade tinha tanto o povo em sua totalidade como o leproso, antepôs este: quero. E não é que o dissesse e não o fizesse prontamente, mas que a obra seguiu-se imediatamente à palavra. E não se limitou a dizer: eu quero: fica limpo, mas acrescenta: estendeu a mão e o tocou. O que é digno de ulterior consideração. Realmente, porque se realiza a cura com a vontade e a palavra, acrescenta o contato da mão? Penso que o faz unicamente para indicar que ele não estava submetido à lei, mas acima da lei, e que doravante tudo é limpo para os limpos.


Na verdade, o Senhor não veio para curar somente os corpos, mas também para conduzir a alma à filosofia. E assim como em outra passagem afirma que doravante não está mais proibido comer sem lavar-se as mãos – assentando aquela admirável lei relativa à indiferença dos alimentos –, da mesma forma nesta passagem estabelece que o importante é cuidar da alma e, sem dar atenção às purificações externas, manter a alma bem limpa, não temendo outra lepra que a lepra da alma, ou seja, o pecado. Jesus é o primeiro que toca a um leproso e ninguém o reprova.


É que aquele tribunal não estava corrompido nem os espectadores estavam exercitados pela inveja. Por isso, não somente não o caluniaram, mas, maravilhados frente à semelhante milagre, retiraram-se adorando seu poder invencível, manifestado em suas palavras e em suas obras.


Tendo-lhe, pois, curado o corpo, o Senhor ordenou ao leproso que não dissesse a ninguém, mas que se apresentasse ao sacerdote e oferecesse o prescrito na lei. E não é que o curasse de modo que pudesse subsistir alguma dúvida sobre sua cura total: mas o encarregou severamente de não dizê-lo a ninguém, para ensinar-nos a não buscar a ostentação e a vanglória. Certamente ele sabia que o leproso não se calaria e que espalharia a notícia de seu benfeitor; contudo, fez o que estava ao seu alcance.


Em outra ocasião, Jesus ordenou que não exaltassem sua pessoa, mas que dessem glória a Deus; na pessoa deste leproso queremos exaltar ao Senhor a que sejamos humildes e que fujamos da vanglória; na pessoa daquele outro leproso, pelo contrário, nos exorta a ser agradecidos e não esquecer os benefícios recebidos. E em qualquer caso nos ensina a canalizar para Deus todo louvor.



São João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla (Séc. V).

domingo, 7 de outubro de 2018

O pastor seja discreto no silêncio, útil na palavra.

                


Seja o pastor discreto no silêncio, útil na fala, para não falar o que deve calar, nem calar o que deve dizer. Pois da mesma forma que uma palavra inconsiderada arrasta ao erro, o silêncio inoportuno deixa no erro aqueles a quem poderia instruir. Muitas vezes, pastores imprudentes, temendo perder as boas graças dos homens, têm medo de falar abertamente o que é reto. E segundo a palavra da Verdade, absolutamente não guardam o rebanho com solicitude de pastor, mas, por se esconderem no silêncio, agem como mercenários que fogem à vinda do lobo. 

O Senhor, pelo Profeta, repreende estes tais dizendo: Cães mudos que não conseguem ladrar (Is 56,10). De novo queixa-se: Não vos levantastes contra nem opusestes um muro de defesa da casa de Israel, de modo a entrardes em luta no dia do Senhor (Ez 13,5). Levantar-se contra é contradizer sem rebuços aos poderosos do mundo em defesa do rebanho. E entrar em luta no dia do Senhor quer dizer: por amor à justiça resistir aos que lutam pelo erro. 

Quando o pastor tem medo de dizer o que é reto, não é o mesmo que dar as costas, calando-se? É claro que se, pelo rebanho, se expõe, opõe um muro contra os inimigos em defesa da casa de Israel. Outra vez, se diz ao povo pecador: Teus profetas viram em teu favor coisas falsas e estultas; não revelavam tua iniquidade a fim de provocar à penitência (Lm 2,14). Na Sagrada Escritura algumas vezes os profetas são chamados de doutores porque, enquanto mostram ser transitórias as coisas presentes, manifestam as que são futuras. A palavra divina censura aqueles que veem falsidades, porque, por medo de corrigir as faltas, lisonjeiam os culpados com vãs promessas de segurança; não revelam de modo nenhuma iniquidade dos pecadores porque calam a palavra de censura.

Por conseguinte, a chave que abre é a palavra da correção porque, ao repreender, revela a falta a quem a cometeu, pois muitas vezes dela não tem consciência. Daí Paulo dizer: Que seja poderoso para exortar na sã doutrina e para convencer os contraditores (Tt 1,9). E Malaquias: Guardem os lábios do sacerdote a ciência; e esperem de sua boca a lei porque é um mensageiro do Senhor dos exércitos (Ml 2,7). Daí o Senhor admoestar por meio de Isaías: Clama, não cesses; qual trombeta ergue tua voz (Is 58,1). 

Quem quer que entre para o sacerdócio, recebe o ofício de arauto, porque caminha à frente, proclamando a vinda do rigoroso juiz, que se aproxima. Portanto, se o sacerdote não sabe pregar, que protesto elevará o arauto mudo? Daí se vê por que sobre os primeiros pastores o Espírito Santo pousou em forma de línguas; com efeito, imediatamente impele a falar sobre ele aqueles que inunda de luzes.



Da Regra Pastoral, de São Gregório Magno, papa.

 (Lib. 2,4: PL 77,30-31) (Séc.VI)

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Cristo falava do templo do seu corpo.




Destruí este templo e em três dias o reedificarei (Jo 2,19). Os apegados ao corpo e às coisas sensíveis, creio, parecem indicar os judeus, que irritados por terem sido expulsos por Jesus, acusando-os de transformarem a casa do Pai em mercado de seus produtos, pedem um sinal. Por esse sinal devia Jesus justificar o seu procedimento e provar que era o Filho de Deus, o que eles na sua incredulidade não queriam admitir. Mas o Salvador ajuntou uma palavra sobre seu corpo, como se falasse daquele templo; aos que interrogavam: Que sinal mostras para assim fazeres?, responde: Destruí este templo e em três dias o reedificarei.  

Todavia ambos, tanto o templo como o corpo de Jesus, compreendidos como unidade, parecem-me ser figura da Igreja. Por ter sido edificada com pedras vivas; feita casa espiritual para o sacerdócio santo(1Pd 2,5). Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo sua máxima pedra angular o Cristo Jesus (Ef 2,20), existindo em verdade, como templo. Se, porém, por causa da palavra: Vós sois o corpo de Cristo e membros uns dos outros(1Cor 12,27), se entender serem destruídas e deslocadas as junturas e disposições das pedras do templo, como se lê no Salmo 21 sobre os ossos de Cristo, pelas ciladas das perseguições e tribulações e por aqueles que combatem a unidade do templo por contradições, levantar-se-á o templo e ressuscitará o corpo ao terceiro dia. Após o dia da maldade que pesa sobre ele, e após o dia da consumação que se seguir.  

Seguirá de perto o terceiro dia do novo céu e da terra nova, quando esses ossos, quero dizer, toda a casa de Israel, serão reerguidos, no grande domingo, em que a morte é vencida. Assim a ressurreição de Cristo depois da paixão contém o mistério da ressurreição do corpo total de Cristo. Como aquele corpo de Jesus, sensível, foi pregado na cruz, sepultado e depois ressuscitado, assim todo o corpo dos santos de Cristo com ele foi pregado na cruz e agora já não vive mais. Cada um deles, à semelhança de Paulo, não se gloria em coisa alguma a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo por quem está crucificado para o mundo e o mundo para ele.  

Por isto não apenas foi cada um de nós, junto com Cristo, pregado à cruz e crucificado para o mundo, mas também, junto com Cristo, sepultado: Fomos consepultados com Cristo, diz Paulo (Rm 6,4) e acrescenta como quem já recebeu as aras da ressurreição: E com ele ressuscitamos (cf. Rm 6,4).


Do Comentário sobre o Evangelho de João, de Orígenes, presbítero
(Tomus 10,20:PG14, 370-371)                (Séc.I)


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Mateus 24:27-51



Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias. E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas. Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis. Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde virá; E começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios, Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, E separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes.

“Vigiai: Cristo Virá de Novo”


Para impedir qualquer pergunta de seus discípulos a respeito do seu advento, Cristo disse: Essa hora ninguém o sabe, nem os anjos, nem mesmo o Filho; e não vos cabe conhecer os dias e os tempos. Ele quis ocultar-nos isto para que permaneçamos vigilantes, e para que cada um de nós possa pensar que esse acontecimento sobrevirá durante a sua vida. Se o tempo de seu retorno tivesse sido revelado, sua vinda seria vã, e as nações e os séculos em que ela acontecerá já não mais a desejariam. Ele disse com muita clareza que virá, mas não precisou em que momento. Desta forma, todas as gerações e épocas da história o esperam ardentemente.

Mesmo que o Senhor tenha dado a conhecer os sinais de sua vinda, não fica claro quando acontecerá, pois estes sinais, submetidos a uma troca constante, tanto tem aparecido como já passaram, e, podemos dizer mais, eles ainda continuam. A última vinda do Senhor, de fato, será semelhante à primeira, pois, do mesmo modo que os justos e os profetas o desejavam, crendo que ele apareceria na sua época, assim, cada um dos atuais fiéis deseja recebê-lo na sua, porque Cristo não revelou o dia de sua aparição. E não o revelou para que ninguém pense que ele – que é soberano do decurso e do tempo – está submetido a algum imperativo ou a alguma hora. O que o próprio Senhor estabeleceu, como poderia lhe estar oculto, visto que pessoalmente detalhou os sinais de sua vinda? Estes sinais foram destacados para que, desde então, todos os povos e todas as épocas pensassem que o advento de Cristo se realizaria em sua própria época.

Velai, portanto, quando o corpo dorme, porque nesta ocasião é a natureza quem nos domina, e nossa atividade não se encontra dirigida pela vontade, mas pelos impulsos da natureza. E quando reina sobre a alma um pesado torpor, por exemplo, a pusilanimidade ou a melancolia, é o inimigo que domina a alma e a conduz contra sua aspiração natural. Apropria-se do corpo a força da natureza, e da alma o inimigo.

Por isso nosso Senhor falou da vigilância da alma e do corpo, para que o corpo não caia em um pesado torpor, nem a alma no entorpecimento e temor, como diz a Escritura: Despertai, como é justo; e também: Eu me levantei e estou contigo; e ainda: Não vos acovardeis. Por tudo isso, nós, encarregados deste ministério, não nos acovardamos.



Santo Efrém, o Sírio (séc. IV)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Evangelho segundo S. Marcos 9,30-37.


Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse ;porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?».

Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior.

Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes:

«Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

«Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe»


A majestade dos Filho de Deus não desprezou a infância. Mas a criança foi crescendo até à estatura do homem perfeito; seguidamente, quando realizou plenamente o triunfo da sua Paixão e ressurreição, todas as ações de condição humilde que fizera por amor a nós se tornaram passado. Contudo, a festa do seu nascimento recorda-nos os primeiros momentos de Jesus, nascido da Virgem Maria. E, quando adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos a nossa própria origem.
Com efeito, o cristianismo inicia-se quando Cristo vem ao mundo: o aniversário da cabeça é o aniversário do corpo. Certamente que cada um dos que são chamados o é na sua vez, e que os filhos da Igreja aparecem em diferentes épocas. No entanto, assim como todos os fiéis, nascidos da fonte do batismo, foram crucificados com Cristo na sua Paixão, reanimados na sua ressurreição e se sentaram à direita do Pai na sua ascensão, assim também todos nasceram com Ele na sua natividade.

Todo o crente que renasce em Cristo após ter abandonado o caminho do pecado original, seja de que parte do mundo for, torna-se um homem novo pelo seu segundo nascimento. Já não pertence à descendência de seu pai pela carne, mas à estirpe do Salvador, porque este Se tornou Filho do homem para que nós possamos ser filhos de Deus.



Bulle São Leão Magno (?-c. 461)
papa, 6º sermão para o Natal

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Seu jejum me destrói...



Certa vez, um jovem endemoniado foi ao skete de alguns dos Padres para ser curado pela oração deles. Entretanto, por humildade eles fugiram. Por muito tempo o desafortunado homem sofreu até que um certo ancião teve piedade dele e o abençoou com uma cruz de madeira que carregava no cinto, expulsando o espírito do mal.

''Já que você me despejou de minha morada'', disse o espírito, ''vou entrar em você''.

''Venha'', respondeu corajosamente o ancião.

E foi assim que o demônio entrou nele e o torturou por doze anos completos. O santo sustentou a luta com fortaleza, combatendo seu inimigo com jejum sobre-humano e oração incessante. Por todos esses anos ele não colocou comida em sua boca uma vez sequer, mastigando uns poucos caroços de tâmara todas as tardes e engolindo só o suco que saía deles.

Finalmente, conquistado pela incessante luta do ancião, o demônio o libertou.

''Por que você está indo embora?'', perguntou-lhe o ancião. ''Ninguém está te expulsando''.

''Seu jejum me destrói'', respondeu o demônio, tornando-se invisível.

Do Evergetinos.

domingo, 23 de setembro de 2018

Os cristãos enfermos.





Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã, mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes. Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e doente o que se sente mal.  

Na verdade, irmãos, esforçamo-nos de algum modo por distinguir estas coisas, mas talvez com maior aplicação poderíamos nós ou outro mais entendido e com o coração mais cheio de luz discernir melhor. À espera disto, para que não sejais privados em relação às palavras da Escritura, falo o que penso. É de se temer sobrevenha uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo.  

Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças, nada de bom podem realizar. O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras– se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze descer diante dele o paralítico. 

A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez 34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para que a possais suportar (1Cor 10,13).




Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 46,13:CCL41,539-540)                (Séc.V)

sábado, 22 de setembro de 2018

A Origem Divina dos Louvores à Santíssima Mãe de Deus.



Lucas 1:39-49,56

Isabel e João Batista, movidos pelo Espírito Santo, são os primeiros seres humanos a prestarem veneração à Santa Mãe de Deus. Eles representam todos os santos da Antiga Aliança que saúdam a chegada da Nova Eva, cumprindo-se a antiga promessa ao gênero humano decaído.  
A narrativa fala que a voz da Virgem provocou grande júbilo espiritual em Isabel e no Precursor ainda fetal. À maneira dos profetas do Velho Testamento, o Espírito Santo leva Isabel a profetizar acerca da Virgem:

1. Primeiramente usa - em relação à Virgem - a fórmula introdutória dos louvores em Israel: «Bendita és tu...». Igualmente, também, louva à Criança: «Bendito É o Fruto do teu ventre»;

2. Enche de humildade a profetiza diante do que lhe é inefável, pois, assim, Isabel diz:

«Quem sou eu para que me visite a Mãe do meu Senhor?»; 

3. Faz com que profetize acerca do que não entende: Isabel sem entender como o mortal poderia gerar o Eterno; louva Àquela que Deus santificou: «Bem aventurada aquela que creu...».

Em contrapartida, à semelhança dos coros que se alternavam nos ofícios levíticos, o Espírito Santo toma a boca de Maria, que também profetiza, louvando o Soberano Deus pela Graça e Salvação que lhe concedeu, sendo ela uma humilde serva; e anuncia a veneração que doravante todas as gerações lhe prestariam:

«Eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada...» (Lc 1:48; Sl 45:17)

A maioria dos Evangélicos não consegue enxergar este sentido do texto, porque não possuem uma alma litúrgica. Como suas experiências se centralizam e se apoiam unicamente na razão discursiva, reduzem a expressão «Bem Aventurada» - aplicada à Virgem - a uma simples declaração sobre o estado de sua alma, e não à uma atitude cúltica por parte de Isabel e seu filho fetal, João Batista, ignorando completamente toda a cultura litúrgica que permeava a sociedade judaica e, em particular, desconsiderando o ambiente doméstico de Isabel: o Templo de Deus, pois era esposa do Sumo Sacerdote Zacarias.

Tal abordagem assemelha-se às visões que um lenhador e um botânico exaurem de uma floresta: ambos, conforme a peculiaridade de cada um, só enxergam as suas utilidades: O lenhador de forma geral enxergará apenas os tipos de madeira que a floresta fornece, e o botânico se concentrará na sua biodiversidade; mas, ambos, dificilmente conseguirão exaurir a «alma» da floresta, como faz um artista, que contempla o todo e as realidades que o inspiram.

Este reducionismo não atinge somente à Santa Virgem, mas, também, ao Próprio Cristo, o Senhor; pois se a fórmula «Bendita, Bem Aventurada» for despida do seu sentido cúltico e reduzida a uma mera afirmação, isto significa que Isabel e o fetal João Batista, também não cultuaram e nem prestaram reverência ao Menino-Deus quando afirmaram: «Bendito É o Fruto do teu ventre».

O júbilo de João Batista, que ainda era um feto, desprovido de razão, mas, já cheio do Espírito desde o ventre materno, o rompante que o Espírito dá a Isabel, que «com grande voz» louva a Mãe do Senhor e a inspiração do próprio canto de Maria nos ensinam que, a partir da visita de Maria a Isabel, que foi o Próprio Espírito Santo que inaugurou e instituiu os louvores e a veneração da Igreja à Santa Mãe de Deus: «DESDE AGORA TODAS AS GERAÇÕES ME CHAMARÃO BEM-AVENTURADA»

Pe. Mateus (Antonio Eça)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Jesus viu-o, compadeceu-se dele e o chamou.


Da Carta de São Paulo aos Efésios                 4,1-16


Diversificação dos dons em um único corpo.




Irmãos: 1Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos.

7 Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 8Daí esta palavra:

“Tendo subido às alturas, ele capturou prisioneiros,
e distribuiu dons aos homens”.

9 “Ele subiu”! Que significa isso, senão que ele desceu também às profundezas da terra? 10Aquele que desceu é o mesmo que subiu mais alto do que todos os céus,a fim de encher o universo.

11 E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude. 14Assim, não seremos mais crianças ao sabor das ondas, arrastados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e induzidos por sua astúcia ao erro. 15Motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo. 16Graças a ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor.





Jesus viu-o, compadeceu-se dele e o chamou.



Jesus viu um homem chamado Mateus, assentado à banca de impostos, e disse-lhe: Segue-me (Mt 9,9). Viu-o não tanto com os olhos corporais quanto com a vista da íntima compaixão. Viu o publicano, dele se compadeceu e o escolheu. Disse-lhe então: Segue-me. Segue, quis dizer, imita; segue, quis dizer, não tanto pelo andar dos pés, quanto pela realização dos atos. Pois quem diz que permanece em Cristo, deve andar como ele andou (1Jo 2,6).

E levantando-se, o seguiu (Mt 9,9). Não é de admirar que o publicano, ao primeiro chamado do Senhor, tenha abandonado os lucros terrenos de que cuidava e, desprezando a opulência, aderisse aos seguidores daquele que via não possuir riqueza alguma. Pois o próprio Senhor que o chamara exteriormente com a palavra, interiormente lhe ensinou por instinto invisível a segui-lo, infundindo em seu espírito a luz da graça espiritual. Com esta compreenderia que quem o afastava dos tesouros temporais podia dar-lhe nos céus os tesouros incorruptíveis.

E aconteceu que, estando ele em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e puseram-se à mesa com Jesus e seus discípulos (Mt 9,10). A conversão de um publicano deu a muitos publicanos e pecadores o exemplo da penitência e do perdão. Belo e verdadeiro prenúncio! Aquele que seria apóstolo e doutor dos povos, logo no primeiro encontro arrasta após si para a salvação um grupo de pecadores. Assim inicia o ofício de evangelizar desde os primeiros começos de sua fé aquele que viria a realizar este ofício plenamente com o merecido progresso das virtudes. Contudo se quisermos indagar pelo sentido mais profundo deste acontecimento nós o entenderemos: a Mateus foi muito mais grato o banquete na casa do seu coração, preparado pela fé e pelo amor do que o banquete terreno que ele ofereceu ao Senhor. Atesta-o aquele mesmo que diz: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele e ele comigo (Ap 3,20).

Ouvindo a sua voz, abrimos a porta para recebê-lo, ao aceitarmos de bom grado suas advertências secretas ou evidentes e nos pormos a realizar aquilo que compreendemos como o nosso dever. Ele entra para que ceemos, ele conosco e nós com ele, porque, pela graça de seu amor, habita nos corações dos eleitos para alimentá-los sempre com a luz de sua presença. Possam assim os eleitos cada vez mais progredir no desejo do alto, e ele mesmo se alimente com os desejos deles como com pratos deliciosos.





Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero

(Hom. 21:CCL, 122,149-151)             (Séc.VI)