"Querida Alison,
Como você vê, sou um correspondente irresponsável. Comecei essa carta duas semanas atrás, que era tarde o suficiente, e então fui de volta para o trabalho (como um busboy em um restaurante) e estava muito cansado para terminá-la. Por favor, perdoe minha longa demora em responder sua carta.
Penso que está muito correta que há algo faltando nas Igrejas Ocidentais; o que está faltando, penso, é precisamente a fé. Por séculos, e agora também, os homens tem voltado seus olhos mais e mais para a terra, e perseguindo a fantasia terrestre de felicidade conforto mundano. Em tal mundo, mesmo aqueles que ainda acreditam em outro mundo encontra mais e mais dificuldades para preservar sua fé; o "espírito das eras" tornou-se tão dominado por preocupações mundanas que alguém, algumas vezes, começa a duvidar da sanidade ao continuar a acreditar no que “todos” consideram incrível. Mas está é apenas uma tentação temporária; há algo pior, e que é o que você percebeu; as pessoas continuam a acreditar externamente, e vão através das emoções aos ofícios cristãos, mas de alguma forma a substância da fé evaporou-se. O espirito do mundo é tão forte e persuasivo que age sem nosso conhecimento. Claro, o mundo sempre fez guerra contra a fé Cristã, mas atualmente quase conseguiu vencer a guerra. Lembra-se das palavras de Nosso Senhor: “Quando o Filho do homem vier, encontrará Ele fé sobre a terra”? Nos últimos dias, a fé estará praticamente extinguida. E ainda, a aparência da fé irá, provavelmente, parecer ter sido mantida; o anticristo, sabemos, tentará imitar Cristo. Provavelmente a “Igreja Mundial”, que é formado pelo “movimento ecumênico” hoje (cujo centro, é claro, será Roma) irá manter intacta maior parte externa da Liturgia Cristã e Dogmas – mas seu coração, a verdadeira fé, estará faltando, e será apenas uma imitação do Cristianismo. Estou escrevendo um ensaio sobre este assunto agora, em conexão com o “novo cristianismo” do Papa João XXIII, e enviarei uma copia para quando (e se) publicar.
Os povos ortodoxos, obviamente, tem o mesmo problema, mas com alguma facilidade maior, por várias razões. Conosco, o Cristianismo é menos abstrato do que tende a se tornar nas Igrejas Ocidentais. Quando rezamos, é diante de nossos ícones, que são feito com oração e são abençoados por um padre e permite-nos, com nossa fraqueza humana, olhar as faces dos Santos e então obter uma força e fervor na oração. Os santos estão presentes de uma forma especial nos ícones e, assim, estão próximos de nós; e, de fato, muito ícones são reconhecidos por fazerem milagres de cura e proteção, devido à intervenção especial dos santos (e especialmente da Santíssima Mãe de Deus). Você já deve ter ouvido falar dos “ícones chorantes” em Nova York (há pelo menos três agora); neles, a Mãe de Deus está avisando-nos de impedir uma catástrofe e nos chamando ao arrependimento. (Um desses ícones esteve aqui e orei diante dele, embora não tenha visto lágrimas. O ícone que mais chora é uma reprodução de papel simples que está se dissolvendo por causa da grande quantidade de lágrimas.) Também, maior parte das nossas músicas não são músicas modernas “compostas” (Há algumas, mas são horríveis), mas cantos antigos compostos por Santos por inspiração do Espírito Santo, e falam diretamente ao Coração. A Igreja Ortodoxa também preserva muito dos antigos sacramentos Cristãos e costumes, há muito abandonada pelo Ocidente (como a distribuição de pães abençoados, a unção com o óleo todos os sábados à noite e antes de cada banquete, a bênção de alimentos em diferentes épocas, a produção de velas ou flores em diferentes festas, o ósculo de perdão no início da Quaresma e o da paz na Páscoa, etc.), alguns dos quais conferem Graça e outros dos quais simplesmente tornam mais vívido e real o significado das festas. E a Igreja Ortodoxa mantém as disciplinas cristãs tradicionais não diluídas, especialmente a prática do jejum estrito e às vezes doloroso, que são necessárias mais do que nunca se quisermos superar o poder e as tentações do mundo.
O mais importante de tudo é a fé, nosso imediato contato com o outro mundo, sem que nada mais tenha qualquer significado. Por nós mesmo, somo fracos para manter isso, e se Nosso Senhor não está conosco, a fé secaria assim como nas outras igrejas. Mas Nosso Senhor está conosco, e em um sentido especial com a Igreja Russa, que Ele escolheu para um papel especial nesses tempos (Os Santos Russos do século XIX profetizaram acerca da Revolução e dispersão providencial dos Cristãos Ortodoxos para cada país do mundo, antes do fim. A “missão russa” tem um significado espiritual, e embora alguns como Dostoyevsky tenham interpretado isso em um senso mundano). É pela aflição que a fé é fortalecida, e a Igreja Russa no Exílio hoje vive por orações de seus milhões de “novos-mártires”, que são para os fieis ortodoxos o que os primeiros mártires eram na Igreja Primitiva. De falto, penso que é altamente provável que nos ortodoxos hoje, vivendo em um momento e um lugar de "paz" e "segurança", logo seremos chamados a morrer a morte de um mártir por nossa fé. A possibilidade é certamente real em face do espírito anti-cristão de "paz" que parece estar esmagando o mundo de hoje e acalmando as pessoas ao sono do mundanismo e do esquecimento do Céu.
Como posso ver, nossas Igrejas mais próximas de você está em Rock Island, Ill. Localizada na1110 10th St., Warsaw (acho que Warsaw é um subúrbio de Rock Island), caso você vá lá. Há duas em Chicago: uma catedral com um arcebispo no 2056 N. Kedzie Boulevard e uma capela em 2141 W. Pierce Ave. Existem outras Igrejas Ortodoxas de vários tipos (principalmente gregos e russos) em cidades de tamanho justo no Médio Oeste (várias em Kansas City e St. Louis), que estarão listadas nas listas telefônicas, mas não conseguiram muita força espiritual e estão rapidamente a caminho da Igreja Católica. Em nossas Igrejas sempre há serviço as seis ou sete (por, aproximadamente, duas horas) no Sábado anoite e as dez no Domingo de manhã. Igano, contudo, que você raramente vá a cidade. Somos agraciados em San Fracisco por termos ótimas Igrejas Russas. De fato,penso que San Francisco é agora o centro principal da imigração russa. É mais difícil, embora possível, levar uma vida Ortodoxa sem a ajuda e consolação de atender frequentemente uma igreja. A irmã da minha madrina, por exemplo, vive no Peru e passa anos sem ir a Igreja, e apenas recebe a Sagrada Comunhão uma vez ao ano quando o Arcebispo vai ao Chile. Muitos santos do deserto, também, raramente iam à Igreja; e Santa Maria do Egito, penso, recebeu a comunhão apenas uma única vez em sua vida. (Já leu sobre sua vida? Ela é uma santa incrível; lhe mandarei caso ainda não tenha lido) Mas não somos tão fortes, e necessitamos de ajuda.
Ao ler sua carta novamente, vejo que você diz: "Sua vida está completa, e você tem muitos amigos muito melhores que eu. Eu não sou um de vocês". Mas isso não é verdade. Na verdade, eu tenho poucos amigos próximos; mas não é isso que quero dizer. A amizade espiritual (e qualquer outro tipo, ao mesmo tempo que tem suas consolações, termina com a morte) não exige condições (atividades comuns ou trabalho, um círculo comum de conhecidos, reuniões frequentes, etc.), sem as quais amizades mundanas simplesmente evaporam. A amizade espiritual está enraizada em uma fé cristã comum, é alimentada pela oração uns pelos outros e falando uns dos outros de coração e sempre é inspirada por uma esperança comum no Reino dos Céus, na qual não haverá mais separação. Deus, por suas próprias razões, nos separou na terra, mas eu rezo e espero e acredito que estaremos juntos quando essa breve vida acabar. Nem por um único dia, você esteve ausente de minhas orações e, mesmo quando não ouvi nada de você por dois anos e pensei que talvez nunca mais ouvisse de você, você ainda estava mais perto de mim do que a maioria das pessoas que vejo com freqüência. Ah, se fôssemos verdadeiros cristãos, não seríamos estranhos a ninguém, e amaríamos mesmo aqueles que nos odeiam; mas, como é, é tudo o que podemos fazer para amar alguns. E você certamente é um dos meus "poucos".
É melhor eu terminar isso, pois eu sei que você deve pensar que eu abandonei você. Desde que comecei a escrever isso, esta tarde (agora é a noite), já perdi meu emprego e preciso procurar outro. É de alguma forma um pensamento sóbrio para mim, com todas as minhas pretensões filosóficas e abstratas, ser um fracasso como um pequeno garoto. Em breve envolver-me-ei para o mosteiro em Nova York para livros e coisas assim, e vou pegar algumas coisas para você. Seja mais amável comigo do que eu fui com você e escreva em breve. E ore por mim, um pecador.

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