A Santa Igreja Ortodoxa, em sua plena sabedoria, conserva o jejum como uma das armas do combate ascético cotidiano. Durante o ano litúrgico quatro períodos estendidos de abstinência, que podemos chamar de Quaresmas, são prescritos: a Quaresma de Natal, a Grande Quaresma (anterior e preparatória à celebração da Páscoa), a Quaresma dos Santos Apóstolos e a Quaresma da Dormição (prefaciando a Festa da Mãe de Deus, no mês de agosto), além das quartas e sextas-feiras (e em alguns Monastérios, as segundas-feiras também) e alguns dias cuja festividade é marcada por uma peculiaridade penitencial.
Mas a pergunta continua... por que jejuar?
Dirigindo-nos à criação deste mundo material do qual fazemos parte e aos nossos antepassados notamos que o primeiro Mandamento de Deus é um pedido de abstinência alimentar: “Não comerei desta árvore”. Alguns Padres da Igreja dizem que este diálogo de Deus com Adão foi a primeira Liturgia... alusão ao ato sinérgico das ladainhas (litanias). A raça humana desobedece. Come o fruto proibido. Mais tarde, Deus restitui esta desobediência com o ato da Crucifixão de Filho no madeiro – motivo de desonra maior para a civilização daquela época. Cristo aceita obedecer a morte na Árvore da Cruz para ressuscitar ao terceiro dia e auferir a Salvação à raça perdida do antigo Adão.
Podemos notar analogias nestes dois atos. Cristo, o novo Adão, resgata a raça adâmica decaída em virtude da desobediência com Sua plena aceitação e obediência à voz de Deus. Um toma da árvore o fruto da mortalidade, o Outro transfigura a natureza do madeiro fazendo dele instrumento Vivificante.
Escatologicamente a Sagrada Eucaristia reúne este episódios salvíficos sendo graça de Deus na criação. E mais uma vez, faz-se necessária a santificação de uma matéria. Mas agora falamos do fruto da imortalidade, a Eucaristia.
Donde a importância do jejum.
Outro fator importante é a ascese, os esforços ascéticos que nos ajudam a manter a vigilância da carne. Domínio do espiritual sobre o carnal. Oração e jejum é a receita dada pelo Próprio Senhor para expulsar as castas de demônios. E realmente uma está atrelada à outra, assim como todas as virtudes entre si.
Uma vida cristã é um constante convite ao auto-conhecimento e o cultivo das virtudes no altar do coração. Atingir o amor-cariadade de Deus é a meta desta vida passageira... como que um teste de habilitação para se ingressar no Eterno Reino de Deus.
Como sabemos, o amor tem estágios... a etimologia grega é perfeita para denotar as nuances na ascensão do amor carnal ao amor espiritual: eros, philos, agápe. Não é à toa que a própria vida do homem o convida a estes estágios de amor: juventude, maturidade e a sapiente velhice. Nossa língua luso-brasileira conhece bem a desgatada terminologia do ‘erótico’ – aquele amor bem carnal... se é que o podemos chamar de amor! O philos é aquele amor-amizade, amor de quem quer bem. A própria palavra amigo vem do verbo amar. E por fim, agápe, o amor divino, AMOR pleno.
Transportando para o nível alimentar, vamos analisar o fato de se ingerir produtos animais (a própria carne, o sangue quente, as energias do animal...). Lógico que quando pronto e bem feito dá gosto... mas é um prazer passageiro, momentâneo. Depois é preciso algum tempo para digerir este prazer...e claro o corpo humano reage por inteiro (sono, dispersão, irritabilidade, maus pensamentos, agressividade, perda de sensibilidade racional...)
Início da Grande Quaresma: dias de grande paz... Como o jejum se torna alicerce no caminho da paciência, do controle, da aceitação da vontade de Deus. Dias em que se vive, de fato, o ser cristão (ser resoluto em tomar a Cruz e seguir o Senhor de nossas vidas). A Cruz nada mais é do que o gradual conhecimento de que a paciência pela paz conduz ao perdão... e eis a ressurreição de nossas quedas, de nossas faltas, de nossos erros, de nossos pecados, enfim. Ressurreição esta que se vive pelo arrependimento e conversão. Temas que o período da Quaresma tanto invoca.
Tomemos como exemplo um iconógrafo, ele jejua quando escreve um ícone. Ele precisa se esvaziar para ser instrumento da graça de Deus. E quais são as armas que ele usa para isso? Oração, sacramentos e jejum. Ele obedece cânones, ele não cria, nem inventa, muito menos copia. Em poucas palavras, obedece (levar em conta a conotação de obediência no cenário que a Ortodoxia vive e convida). Ele concentra e não espalha, dispersa. Alguns dentre eles, jejuam rigorosamente quando se põem a pintar o ícone do Salvador. Não é nada fácil segurar o pincel diante da Face de teu Senhor e Deus.
Jesus, Ele Próprio jejua. Os Evangelhos relatam Sua passagem pelo deserto, Sua luta contra as tentações do adversário. E não é à toa que a Santa Igreja Ortodoxa convida seus filhos a se prepararem pela oração e o jejum. Vejamos o caso daqueles que se preparam para o Batismo, a Santa Comunhão, a Ordenação, a Tonsura Monástica... de todos estes é pedido esta limpeza, abstinência, esvaziamento.
Esvaziar-se não no sentido de perder-se, mas de abrir-se à plenitude. Acolher o convite de realizar a Sua vontade, assim na terra como no céu.

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