segunda-feira, 11 de junho de 2018

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO SOBRE O CASAMENTO.




“Maridos, amem suas mulheres, como Cristo também ama a Igreja'' (v. 25). Vocês tem ouvido como a obediência é importante; vocês tem louvado e se maravilhado com Paulo, do modo como ele torna uma unidade a totalidade da nossa vida, tal como esperaríamos de um homem admirável e espiritual. Vocês fazem bem. Mas agora ouçam o que mais ele requer de vocês; ele não terminou seu exemplo. ''Maridos'', ele diz, ''amem suas mulheres como Cristo ama a Igreja''. 

Você viram a quantidade de obediência que é necessária; agora ouçam o quanto de amor é necessário. Você deseja que sua mulher seja obediente a você, tal como a Igreja é a Cristo? Então seja responsável por ela com o mesmo cuidado providencial que Cristo possui pela Igreja. E ainda que seja necessário dar a sua vida por ela, sim, e ainda que deva suportar e se submeter a sofrimentos de qualquer tipo, não recuse. 

Ainda que você tenha de se submeter a tudo isto, nunca fará nada igual ao que Cristo fez. Você está se sacrificando por alguém que você já tem, mas Ele se ofereceu por aqueles que voltaram as costas para Ele e que O odiaram. Do mesmo modo, então, tal como Ele a honrou, colocando sob Seus pés aquela que voltou as costas para Ele, que O odiou, rejeitou, desdenhou; assim como Ele realizou isto sem ameaças, ou violência, ou terror, ou qualquer coisa parecida, mas por seu incansável amor; assim também você deve proceder com sua mulher. 

Ainda que você a veja te menosprezando, ou desprezando ou zombando de você, ainda assim você é capaz de sujeitá-la através da afeição, gentileza, e por seu grande cuidado por ela. Não há influência mais poderosa do que o vínculo do amor, especialmente entre marido e mulher. Um servo pode aprender a submissão através do medo; mas até ele, se muito provocado, logo vai buscar escapar. 

Mas aquela que é a sua companheira de vida, a mãe de seus filhos, a fonte de toda sua alegria, nunca deve ser acorrentada por medo e ameaças, mas pelo amor e com paciência. Que tipo de casamento pode existir quando a mulher teme o marido? Que tipo de satisfação poderia o próprio marido ter se vive com sua mulher como se ela fosse uma escrava, e não como uma mulher por livre vontade? 

Sofra qualquer coisa por causa dela, mas nunca a desgrace, pois Cristo nunca fez isto com a Igreja. Ele se deu a ela de modo que ''a purificasse e santificasse...'' (v. 26). Portanto, a Igreja não era pura. Ela possuía culpas, era feia e ordinária. Seja qual for o tipo de mulher com quem você casar, nunca terá uma esposa como a de Cristo quando Ele se casou com a Igreja; você nunca casará com alguém tão estranho a você como a Igreja era em relação a Cristo. Apesar de tudo isto, Ele não a repudiou ou odiou por sua corrupção extraordinária. 

Você quer que a corrupção dela seja descrita? Paulo diz, ''Pois então vocês estavam na escuridão''. Percebe o quão negra era ela? Nada é mais negro do que a escuridão. Pense em seu descaramento; ela passava seu dia na malícia e inveja, diz Paulo. Veja sua impureza; ela era tola e desobediente. Mas o que digo? Ela era tola, sua língua era má, mas apesar de suas feridas serem tantas, Ele se sacrificou por ela no estado de corrupção em que ela se encontrava, como se ela estivesse na flor de sua juventude, como se ela fosse bem-amada, e de uma beleza extraordinária. 

São Paulo se maravilhou disto, e disse, ''Porque alguém dificilmente morreria por um justo -- apesar de que talvez por um bom homem alguém ousasse morrer. Mas Deus mostrou seu amor por nós quando éramos ainda pecadores''. Ainda que ela fosse assim, Cristo a aceitou e a tornou linda. Ela a lavou, e não hesitou nem mesmo em se sacrificar por ela.

''Para santificá-la, purificando-a pela água da palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.'' (26-27) ''Purificando-a pela água'', ele lavou suas impurezas. ''Com a palavra'', diz ele. Que palavra? ''No Nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo''. E ele não apenas a honrou, mas a apresentou a Si em esplendor, sem mácula ou ruga ou qualquer coisa semelhante. Lutemos também para atingir tal beleza, e sejamos capazes de criá-la em nosso interior. [...]

“Assim os maridos devem amar as mulheres como aos seus próprios corpos'' (v. 28). O que isso significa? Ele está usando uma imagem muito mais forte e ilustrativa agora, muito mais próxima e direta, e de muito maior exigência. Alguns talvez não tenham sido convencidos por seu exemplo anterior, dizendo, ''apesar de tudo, Ele era Cristo, e Cristo é Deus -- naturalmente Ele se sacrificaria''. 

O método de Paulo é diferente agora; ele diz, ''os maridos devem amar suas mulheres'' -- porque tal amor é uma obrigação, não uma favor -- ''como a seus próprios corpos''. Por quê? ''Certamente ninguém jamais odiou a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e trata.'' (v. 29). Quer dizer, ele tem cuidado particular com ela. Como pode ser ela sua carne? 

Ouça: ''Esta é ossos de meus ossos'', disse Adão, ''e carne de minha carne''. Assim, ele nutre e cuida de sua própria carne, ''tal como Cristo faz com a Igreja'' (v. 29). Ele retorna aqui à primeira comparação: ''....; porque somos membros de Seu corpo, de Sua carne e de Seus ossos'' (v.30). [...]

Não criem desculpas para vocês; certamente você percebe que seu corpo tem muitos defeitos. Um é manco, outro tem pés ou mãos deformados, ou é doente de uma maneira ou de outra, e ainda assim ninguém está tão afligido que deseja amputar seus membros doentes. Ao invés, ele tem ainda mais ainda atenção ao restante de seu corpo; naturalmente, porque é parte dele. 

Um homem deve amar sua mulher tanto quanto ama a si mesmo, não somente porque partilham da mesma natureza; não, a obrigação é ainda maior, pois eles já não são mais dois corpos, mas um: ele é a cabeça, ela o corpo. Paulo diz em outro lugar, ''A cabeça de Cristo é Deus'', e eu digo que marido e mulher são um corpo do mesmo modo que Cristo e o Pai são um. Então vemos que o Pai é sua cabeça também. Paulo combinou duas ilustrações, o corpo natural e o corpo de Cristo; daí porque ele diz, ''Este é um grande mistério, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja'' (v. 32). 

O que isso significa? O abençoado Moisés -- ou antes, Deus -- certamente revelou em Gênesis que é um grande e maravilhoso mistério que os dois se tornem um. Agora Paulo fala de Cristo como o grande mistério; pois Ele deixou o Pai e desceu para nós, e casou com Sua noiva, a Igreja, e se tornou um espírito com ela: ''aquele que está unido ao Senhor é um espírito com Ele''. 

Paulo diz também, ''Este é um grande mistério'', como se dissesse, ''no entanto o sentido alegórico não invalida o amor marital''. E retorna ao tema no que se segue. ''Em resumo, o que importa é que cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo, e que a mulher respeite o seu marido.'' (v.33). 

De fato, de todas as ações, esta é um mistério, um grande mistério de fato, que um homem deva deixar aqueles que lhe deram vida e educaram e aquela que sofreu e se esforçou em sua infância. Pois um homem deixa aqueles que o favoreceram com tão grandes bençãos, aqueles com os quais teve tão grande contato, e se une aquela que ele nem sempre conheceu e que geralmente nada tem em comum com ele, e deve honrá-la mais do que todos os demais -- este é um mistério de fato. 

E ainda assim os pais não se entristecem quando os casamentos acontecem, mas quando ele não ocorrem! Eles se deleitam em gastar dinheiro abundantemente com os casamentos -- um outro grande mistério de fato! E um que contém uma sabedoria oculta: Moisés profeticamente revelou isto desde o início e Paulo o proclama agora, quando ele compara o casamento a Cristo e a Igreja.[...]

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