A Vida em Cristo, II, 75ss.
Para nós há duas maneiras de conhecer os objectos: o conhecimento que se pode receber por nos ser contado, e aquele que se pode adquirir por nós próprios. Pelo primeiro, não alcançamos o objecto em si, apenas o percebemos através de palavras, como numa imagem […]; de modo diverso, fazer a experiência dos objectos é encontrá-los realmente em si próprios. Neste segundo tipo de conhecimento, a forma do objecto prende a alma e desperta o desejo como um sinal à medida da sua beleza […].
Da mesma forma, se o nosso amor pelo Salvador nada produz de novo nem de extraordinário, é evidente que o nosso empenhamento em amá-Lo deriva de apenas termos ouvido falar a seu respeito. Como poderíamos nós, apenas por ouvir falar d’Ele, conhecê-Lo como merece, Esse a quem nada se assemelha […], Esse a quem nada pode ser comparado e que não pode ser comparado a nada? Como poderíamos conhecer a sua beleza e amá-Lo à medida da sua beleza? Mas, sempre que os homens experimentam um intenso desejo de amar, um desejo de fazer por Ele coisas que ultrapassam a natureza humana, é porque foi o próprio Esposo a tê-los tocado e ferido. Ele abriu-lhes os olhos à beleza divina. A profundidade da ferida testemunha o quanto a seta de facto penetrou; e o ardor do desejo revela Quem os feriu.
Eis como a nova Aliança é diferente da Antiga; antigamente era a palavra o que educava os homens; hoje, é Cristo em pessoa quem, de uma maneira indizível, prepara e modela as almas dos homens. Se o ensinamento da Lei bastasse para os conduzir, então não teriam sido necessários os actos extraordinários de um Deus tornado homem, que foi crucificado e depois morto. Isto é verdade também para os apóstolos, nossos pais na fé. Eles tinham ouvido os ensinamentos do Salvador, as palavras da sua boca; tinham visto os seus milagres e assistido a todas as provações que suportou pelos homens, viram-No morrer, ressuscitar e em seguida elevar-Se nos céus. Tudo isto eles o sabiam, mas nada mostraram de novo, de generoso, de verdadeiramente espiritual, até se terem baptizado no Espírito Santo […]. Só então, somente, o verdadeiro desejo por Cristo neles se acendeu, e através deles, se acendeu em outros.
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Nicolas Cabasilas
(c. 1320-1363)
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Teólogo leigo grego, Nicolas era sobrinho do célebre polemista Nilo Cabasilas. Nasceu em Salônica, em 1320, e faleceu antes de 1391. Fazia parte do círculo que trabalhado em estreita colaboração com o imperador João VI Cantacuceno. Entretanto, não era, com se costuma dizer, "Arcebispo de Tessalônica". Provavelmente, nem sequer tenha sido clérigo. Contudo, parece que, em 1354, tenha se candidatado ao trono patriarcal. Cabasilas era um homem bem instruído e qualificado, um dos melhores escritores da Igreja Grega no século XIV. Na controvérsia dos Hesicastas colocou-se ao lado de Gregorio Palamàs e o defendeu com ardor contra Nicéforo Gregoras (escreveu um panfleto intitulado "Contra as loucuras de Gregoras' PG 148,61). Combateu também os latinos por causa da forma da Eucaristia. A consagração, disse, (PG 150, 426) requer, juntamente com as palavras da instituição da Eucaristia, as orações que seguem nas quais se invoca o Espírito Santo (Epíclese). Além destas controvérsias, Cabasilas teria composto alguns tratados e sermões notáveis, a maioria dos quais encontram-se publicados. Os melhores são A interpretação da Divina Liturgia e A Vida em Cristo. Interpretação da Divina Liturgia1 é uma excelente exposição metódica e doutrinal dos ritos e fórmulas da Liturgia Bizantina. A obra foi consultada nas primeiras deliberações do Concílio de Trento sobre o sacrifício eucarístico. Bossuet, ao citar o autor, em 1689, chama-o de "um dos mais sólidos teólogos da Igreja grega." A Vida em Cristo2apresenta a vida espiritual como uma vida de união com Cristo que se comunica por meio dos sacramentos. Esta vida é obra da graça divina, de Cristo que opera de uma maneira especial por meio do Batismo e da Eucaristia. Esta graça exige, no entanto, a cooperação humana: a boa vontade que se submete à graça 3. Outro grupo de escritos constituem alguns discursos religiosos ou homilias: Homilia contra usurários (PG, 150,728-749); Panegírico de Santa Theodora (PG, 150, 753-772; Acta Sant, Abril I, 55-69.); Panegírico de São Demétrio em Th Ioannou, Mnemeia hagiologica, Veneza 1884, 67-114; Homilias Marianas: sobre a Natividade, a Anunciação, a Dormição, ed. O. Jugie em Patrologia Orientalis, XIX, 1925, 456-510; He Theometor. Treis theometorikes homilies, Atenas, 1968. Há que se acrescentar ainda uma curta Oração a Jesus Cristo, ed. e trad. em "Echos d'Orient", XXXV (Março de 1936). Para as outras edições parciais, cfr. H. O. Beck, Kirche und Literatur im byzantinischen Theologische Reich, Munique 1959, 780-783. G. Horn (La vie dans le Christ de N. Cabasilas, «Rey. d'ascetique et de mystique» 3 [1922] 20-45) resumiu nas cinco ideias seguintes a doutrina de Cabasilas: 1) A compenetração do mundo futuro e do mundo presente; 2) Os sentidos e as faculdades espirituais; 3) As relações íntimas de cristão com Cristo; 4) A obra do homem em união com Cristo; 5) O amor puro. Simplesmente, se poderia reduzir a doutrina espiritual de Cabasilas à doutrina do Corpo Místico de Cristo, de que "nós somos os membros e Ele é a cabeça" (PG 150, 500 D).

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