No ciclo litúrgico anual da Igreja, o Pentecostes é o ''último e grande dia''. É a celebração da vinda do Espírito Santo como fim -- cumprimento e realização -- da história da salvação. Pela mesma razão, é também a celebração do início: é o ''nascimento'' da Igreja como presença do Espírito Santo entre nós, da nova vida em Cristo, da graça, conhecimento, adoção por Deus e da santidade.
Este duplo significado e alegria nos é revelado, em primeiro lugar, pelo próprio nome da festa. Pentecostes significa 50 em grego, e no sagrado simbolismo numérico das Escrituras o número 50 simboliza tanto a plenitude dos tempos como também aquilo que está para além da temporalidade: o próprio Reino de Deus.
Simboliza a plenitude do tempo por meio de seu primeiro componente: 49, que é a completude do 7 (7 x 7), que por sua vez é o número do tempo. E simboliza o que está além da temporalidade por seu segundo componente: 49 + 1, este último sendo o ''dia novo'', o ''dia sem anoitecer'' do Reino eterno de Deus.
Com a descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Cristo, o tempo da salvação, o trabalho divino de redenção se completa, todos os dons são outorgados: cabe a nós ''nos apropriarmos'' desses dons, para que sejamos partícipes e cidadãos do Reino de Cristo.
Padre Alexander Schmemann (1974)
Alguns, de modo errôneo, consideram o Pentecostes como ''o nascimento da Igreja''. Mas isso não é verdade, pois o ensinamento dos Santos Padres é de que a Igreja existia antes de todas as coisas. Na segunda visão do 'Pastor de Hermas' lemos, ''Agora irmãos, uma revelação me foi feita durante o sono por um jovem que excedia toda a beleza, e que me perguntou: ''Quem você pensa ser a anciã de quem você recebeu o livro?'' Respondi, ''A Sibila''. Ele disse, ''Você está errado, ela não é [a Sibila].'' Eu disse, ''Então quem ela é?''. Respondeu ele, ''A Igreja''. Perguntei, ''Por que então ela está idosa?''. Disse ele, ''Porque ela foi criada antes de todas as coisas; portanto ela é idosa, e por causa dela o mundo foi modelado''.
São Gregório Teólogo também fala da ''Igreja de Cristo [...] antes de Cristo e depois de Cristo''. Santo Epifânio de Chipre escreve, ''A Igreja Católica, que existe antes dos tempos, se revela mais claramente na Encarnação de Cristo''. São João Damasceno observa, ''A Santa Igreja Católica de Deus, portanto, é a Assembléia dos Santos Padres, dos Patriarcas, Apóstolos, Evangelistas, e Mártires que existiram desde o princípio, a quem se juntaram todas as nações que acreditaram de acordo com ela''. Segundo São Gregório Teólogo, ''Os Profetas estabeleceram a Igreja, os Apóstolos a articularam e os Evangelistas a organizaram''.
A Igreja existe desde a criação dos Anjos, pois os Anjos vieram à existência antes da criação do mundo, e eles se tornaram membros da Igreja. São Clemente, Bispo de Roma, afirmou em sua segunda epístola aos Coríntios que a Igreja ''foi criada antes do sol e da lua''; e um pouco depois, ''A Igreja não existe agora pela primeira vez, mas desde o início''. Aquilo que ocorreu em Pentecostes, portanto, foi a ordenação dos Apóstolos, o começo da pregação apostólica às nações, e a inauguração do sacerdócio do novo Israel.
São Cirilo de Alexandria diz que ''Nosso Senhor Jesus Cristo a partir daí ordenou os instrutores e mestres do mundo e administradores dos divinos mistérios...revelando junto com a dignidade do apostolado a glória incomparável da autoridade que lhes foi dada....eles se tornaram aptos a iniciarem outros através do guiamento iluminado do Espírito Santo''. São Gregório Palamas disse, ''Agora, portanto...o Espírito Santo desceu...tornando os discípulos luminares celestiais...e a graça distribuída pelo Espírito Divino vem através da ordenação dos Apóstolos sobre seus sucessores''. E São Sofrônio, Bispo de Jerusalém, escreveu, ''Depois da visita do Consolador, os Apóstolos se tornaram Sumo Sacerdotes''.
Assim, com o batismo do Espírito Santo que veio sobre os que estavam presentes na alta câmara os Apóstolos foram também apontados e elevados ao posto do sumo sacerdócio, de acordo com São João Crisóstomo. [...] A festa do Santo Pentecostes, portanto, determina o início do sacerdócio da graça, não o início da Igreja. A partir de então, os Apóstolos proclamaram as Boas Novas ''no campo e na cidade'', pregando e batizando e apontando pastores, transmitindo o sacerdócio àqueles que julgavam dignos do ministério, como São Clemente escreveu em sua primeira epístola aos coríntios.

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