domingo, 6 de maio de 2018

A Mãe de Deus e a Tradição


 
       Mais uma vez enfrentamos a impossibilidade de separar o dogma e vida da Igreja, Escritura e a Tradição. O dogma cristológico nos obriga a reconhecer a maternidade divina da Virgem. A evidência bíblica nos ensina que a glória da Mãe de Deus não reside apenas na sua maternidade corporal, no fato de ela ter dado à luz e alimentado o Verbo Encarnado. Na verdade, a Tradição da Igreja  - a santa memória daqueles que "ouvem e guardam" as palavras da revelação - dá à Igreja a garantia com a qual ela exalta a Mãe de Deus, atribuindo-lhe uma glória ilimitada.


        À parte da Tradição da Igreja, a teologia permanecerá em silêncio sobre assunto e não conseguiria justificar essa surpreendente glorificação. É por isso que as comunidades cristãs que rejeitam qualquer idéia de Tradição também são estranhas à veneração da Mãe de Deus.

        A estreita conexão entre a Tradição e tudo o que diz respeito à Mãe de Deus não é simplesmente devido ao fato de que eventos da sua vida terrena - como sua Natividade, sua Apresentação no Templo e sua Assunção - são celebrados pela Igreja sem serem mencionados na Bíblia. Se o Evangelho é silencioso sobre esses fatos, e se sua elaboração poética se deve a livros apócrifos de data tardia, ainda assim o tema fundamental que significam pertence ao mistério de nossa fé e não deve ser afastado da consciência da Igreja. Na verdade, a noção de Tradição é mais rica do que pensamos habitualmente. A Tradição não consiste apenas em uma transmissão oral de fatos capazes de complementar a narrativa bíblica. É o complemento da Bíblia e, acima de tudo, é o cumprimento do Antigo Testamento no Novo, visto que a Igreja se faz consciente. É a Tradição que confere compreensão do significado da verdade revelada (Lucas 24). A Tradição nos diz não só o que devemos ouvir, mas ainda mais importante, como devemos manter o que ouvimos. Neste sentido geral, a Tradição implica uma operação incessante do Espírito Santo, que pôde ter seu derramamento pleno e seus frutos apenas na Igreja, depois do Dia de Pentecostes. É somente na Igreja que nos encontramos capazes de traçar as conexões internas entre os textos sagrados que fazem do Antigo Testamento e do Novo Testamento um único corpo vivo da Verdade, onde Cristo está presente em cada palavra. É somente na Igreja que a semente semeada pela palavra não permanece estéril, mas produz fruto; e esta fruição da Verdade, bem como o poder de produzir frutos, é chamada de Tradição. A devoção ilimitada da Igreja à Mãe de Deus, que, vista externamente, parece contrariar os dados bíblicos, desenvolveu-se na Tradição da Igreja. É o fruto mais precioso da Tradição.

      Mas não é apenas o fruto da Tradição; é também o embrião e o tronco da Tradição. Com efeito, podemos encontrar uma relação definitiva entre a pessoa da Mãe de Deus e o que chamamos de Tradição da Igreja. Tentaremos, ao estabelecer essa relação, vislumbrar a glória da Mãe de Deus sob o véu do silêncio das Escrituras. Um exame dos textos, em sua conexão interna, nos guiará neste sentido.

Fonte: https://skemmata.blogspot.com.br/search/label/Theotokos?m=1

Nenhum comentário:

Postar um comentário