domingo, 6 de maio de 2018

A Theotokos


       A Igreja Ortodoxa não fez da Mariologia um tema dogmático independente: permanece integral a todo o ensinamento cristão, como um leitmotiv antropológico. Com base na cristologia, o dogma da Mãe de Deus tem um forte ênfase pneumatológico; e através da dupla economia do Filho e do Espírito Santo, está inextricavelmente ligado à realidade eclesiológica.
        Na verdade, se nos limitássemos a dados dogmáticos no sentido estrito da palavra e só tratássemos de dogmas afirmados pelos Concílios, não encontraríamos nada exceto o termo Theotokos, pelo qual a Igreja confirmou solenemente a maternidade divina da Santíssima Virgem. [1]
     A ênfase dogmática do termo Theotokos, afirmado contra os nestorianos, é acima de tudo cristológico: o que é defendido contra os adversários da maternidade divina é a unidade hipostática do Filho de Deus se tornar o Filho do Homem. É a cristologia que é diretamente confrontada aqui; mas, ao mesmo tempo, indiretamente, há uma confirmação dogmática da devoção da Igreja a ela que deu à luz a Deus, de acordo com a carne. Dizem que todos aqueles que se erguem contra o título Theotokos - todos os que se recusam a admitir que Maria tem essa qualidade que a piedade atribui a ela - não são verdadeiramente cristãos, pois se opõem à verdadeira doutrina da Encarnação do Verbo. Isso deve demonstrar a conexão estreita entre dogma e devoção, que são inseparáveis na consciência da Igreja.
        No entanto, conhecemos casos de cristãos que, embora reconheçam a maternidade divina da Virgem por razões puramente cristológicas, abstêm-se de toda devoção especial à Mãe de Deus pelas mesmas razões, desejando não conhecer nenhum outro mediador entre Deus e o homem além do Deus-Homem, Jesus Cristo. Esta constatação é suficiente para demonstrar que o dogma cristológico da Theotokos tomado in abstracto, fora do vínculo vivo com a devoção que a Igreja consagrou à Mãe de Deus, não seria suficiente para justificar o lugar único - além de todo ser criado - reservado à Rainha dos Céus, a que a liturgia Ortodoxa atribui "a glória que é apropriada a Deus" (he Theoprepes doxa). Por conseguinte, é impossível separar as bases dogmáticas, em sentido estrito, das bases de devoção, numa exposição teológica da doutrina sobre a Mãe de Deus. Aqui, o dogma deve lançar luz sobre a devoção, colocando-a em contato com as verdades fundamentais de nossa fé; desde que a devoção deve enriquecer o dogma com a experiência viva da Igreja.
        Estamos todos na mesma posição em relação aos dados das escrituras. Se desejássemos considerar a evidência das escrituras à parte da devoção da Igreja à Mãe de Deus, seríamos obrigados a limitar-nos às poucas passagens do Novo Testamento relativas a Maria, a Mãe de Jesus, e a uma única referência direta no Antigo Testamento: a profecia do nascimento do Messias de uma Virgem, em Isaías. Mas se olharmos a Bíblia através dos olhos da devoção da Igreja, ou - para usar um termo mais exato - na Tradição da Igreja, então os livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento nos fornecerão inúmeros textos utilizados pela Igreja para glorificar a Mãe de Deus.
        Algumas passagens nos evangelhos, se vistas externamente, de um ponto de vista fora da Tradição da Igreja, parecem contradizer de forma flagrante essa glorificação extrema e veneração ilimitada. Tomemos dois exemplos: Cristo, ao dar testemunho de São João Batista, chama-o de o maior dos que nasceram das mulheres (Mateus 11:11; Lucas 7:28). É, portanto, para ele, e não para Maria, que a posição mais elevada entre os seres humanos deveria pertencer. De fato, na prática da Igreja, encontramos João Batista com a Mãe de Deus ao lado do Senhor nos ícones da deisis. Mas a Igreja nunca exaltou São João, o Precursor, acima dos Serafins, nem colocou seu ícone em pé de igualdade com o ícone de Cristo, em um dos lados da entrada do santuário, como é o caso do ícone da Mãe de Deus.
        Outra passagem no evangelho nos mostra que Cristo se opõe publicamente à glorificação de sua Mãe. Ele responde a exclamação da mulher na multidão que clama: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste", dizendo: "Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lucas 11 : 27-28). Mas é precisamente esta passagem em São Lucas, que parece depreciar o fato da maternidade divina em comparação com a qualidade daqueles que recebem e mantêm a revelação divina, que é o texto do evangelho lido solenemente nas festas da Mãe de Deus, como se sob sua aparente forma negativa escondesse um ato de louvor ainda maior.

[1] O termo "Sempre-Virgem" (aeiparthenos), encontrado nos atos conciliares do Quinto Concílio em diante, nunca foi particularmente explícito pelos concílios que o empregaram.

Fonte: https://skemmata.blogspot.com.br/search/label/Theotokos?m=1

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