sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Festa da Exaltação da Santa, Venerável e Vivificante Cruz.


A Igreja celebra hoje a festa da Exaltação da Santa Cruz. É uma festa que se liga à dedicação de duas importantes basílicas construídas em Jerusalém por ordem de Constantino, filho de Santa Helena. Uma foi construída sobre o Monte do Gólgota; por isso, se chama Basílica do Martyrium ou Ad Crucem. A outra foi construída no lugar em que Cristo Jesus foi sepultado pelos discípulos e foi ressuscitado pelo poder de Deus; por isto é chamada Basílica Anástasis, ou seja, Basílica da Ressurreição.

A dedicação destas duas basílicas remonta ao ano 335, quando a Santa Cruz foi exaltada ou apresentada aos fiéis. Encontrada por Santa Helena, foi roubada pelos persas e resgatada pelo imperador Heráclio. Segundo contam, o imperador levou a Santa Cruz às costas desde Tiberíades até Jerusalém, onde a entregou ao Patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630. Tal festividade lembra aos cristãos o triunfo de Jesus, vencedor da morte e ressuscitado pelo poder de Deus.

«A Festa da Exaltação da Santa Cruz»

A pregação da Cruz é uma necessidade para os que se perdem; mas para os que se salvam - para nós - é força de Deus. Por que diz a Escritura:

Destruirei a sabedoria dos sábios, e inutilizarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde o douto? Onde o sofista deste mundo? De fato, como o mundo através de sua própria sabedoria não conheceu Deus na divina sabedoria, quis Deus salvar os crentes através da necessidade da pregação.

Assim, enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado: escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas para os chamados, tanto judeus quanto gregos, um Cristo, força de Deus e sabedoria de Deus (1)

As palavras do apóstolo Paulo, lidas na solenidade da Exaltação da veneranda e santificadora Cruz, marcam o sentido inequívoco que, desde o princípio, tivera para os cristãos o patíbulo dos malfeitores, que era a cruz. Por que, pois, estranhar-se que a Igreja a tenha considerado objeto de culto particular?

Romano o Melode, imaginando um diálogo entre o diabo e o inferno, põe na boca do primeiro as palavras:

Belial, é tempo de abrires o ouvido. A hora presente far-te-á ver o império da Cruz, e o grande poder do Crucificado. Para ti, a Cruz não é senão loucura; porém toda a Criação a considera como um trono desde que, nela cravado, escuta Cristo como juiz em atividade (2).

A forma de cruz das igrejas antigas, inclusive hoje nas de tradição bizantina, evoca a virtude ou força da ação redentora desse sinal.

A Cruz defende a todos do maligno e de seus ataques. Os marcados com o sinal de Cristo têm a esperança confiante de entrar no paraíso (3).

Nas igrejas bizantinas, atrás do altar e no ponto mais alto do Iconostase, destaca-se a Crucifixão, (4) com o objetivo de que, de qualquer ponto do templo e a todo momento, possa atrair o olhar dos fiéis para a Árvore da Vida, plantada no novo paraíso universal, frondosa e muito mais honorável que a do Éden (5).

De modo que, instruídos sobre a adoração da Cruz, feita de matéria comum, rendamos nossa adoração, não à matéria, mas àquele nela crucificado (6)

Após ter degustado a morte sob a árvore proibida, Adão volta à vida sob a árvore da Cruz. Pode, Senhor, de agora em diante saborear de novo as delícias do paraíso.

Em Adão está representada toda a linguagem humana, pelo que, também nós, gozamos de idêntico benefício, pois, como outro paraíso, a Igreja possui atualmente uma árvore da vida: a Cruz vivificadora de Cristo. Saboreando seu fruto, alcançamos a imortalidade (7).

Além dessas citações, por assim dizer externas, são vários os Ofícios que recordam a importância da Cruz na economia de nossa salvação.

O ciclo litúrgico semanal dedica-lhe a Sexta-feira; e cada dia, na liturgia das Horas, a Hora Nona, que foi a da morte na Cruz (8).

Encontramos, além disso, no calendário, algumas festas dedicadas à Cruz ou nas quais se celebra o mistério: umas são móveis, outras fixas (9)

As festas móveis são:

a) A grande Sexta-Feira Santa. No Ofício da Paixão, e cantando o hino:

Hoje foi colocado no lenho
aquele que sustém a terra sobre as águas.
É coroado de espinhos o Rei dos anjos.
Púrpura injuriosa é a veste
de quem cobrira o céu de nuvens.
Recebe cusparadas
aquele que no rio Jordão
libertou Adão de seu pecado.
Cravado é o Esposo da Igreja,
transpassado pela lança o Filho da Virgem.
Teus sofrimentos, Cristo, hoje veneramos;
mostra-nos também a glória de tua ressurreição (10)

Leva-se processionalmente a Cruz, depositando-a depois no centro da nave para que possa ser venerada pelo clero e o povo fiel (11).

b) Terceiro Domingo da Quaresma. Denomina-se, por isso, Domingo da Adoração da Cruz. Trata-se de uma festa tipicamente constantinopolitana, que teve origem no translado de uma relíquia insigne da Cruz para a capital do Império. Segundo alguns liturgistas, tal festa tinha nascido relacionada com a reposição da verdadeira Cruz de Jerusalém pelo imperador Heráclio, no dia 21 de março de 631, após tê-la resgatado dos persas, que a tinham roubado como despojo de guerra (12).

A cerimônia litúrgica segue o seguinte programa: no sábado, após as Vésperas, translada-se a relíquia da Santa Cruz para o altar, onde fica exposta durante toda a noite. Os cânticos de Matinas compostos por Teodoro Studita (758-826), (13) vão expressando os temas da festa:

Dia de adoração da Santa Cruz!
Todos se acercam para adorá-la!
Vede-a exposta perante nós:
brilha com os esplendores
da ressurreição de Cristo.
Vamos, pois, com alegria espiritual,
render-lhe veneração.

Terminadas as Matinas, o celebrante faz uma procissão na própria igreja, carregando a Cruz no alto para colocá-la finalmente na peanha diante do Iconostase.

Vão todos se aproximando para adorar a sagrada relíquia, enquanto cantam:

Tua Cruz, Senhor, adoramos
e proclamamos tua santa ressurreição.
Salva teu povo, Senhor,
e abençoa tua herança;
concede aos governantes (14)
vitória sobre os bárbaros;
e dá-nos, por tua Cruz, parte em teu reino.

A homilética sobre essa festividade insiste no seguinte:

Hoje, mostra-se a Igreja de Cristo como novo paraíso: ao expor o santo madeiro da Cruz, antecipa a Paixão e a Ressurreição (15).

As duas solenidades móveis vêm coroadas de outras três fixas, com a ordem seguinte, no calendário bizantino: (16)

a) A Exaltação (17) universal da veneranda e vivificadora Cruz, que se celebra no dia 14 de setembro e da qual falaremos mais extensamente.

b) A memória da aparição celeste do sinal da Cruz, cuja celebração tem lugar no dia 7 de maio. Comemora-se, então, a aparição, no céu de Jerusalém, do sinal da Cruz quando era imperador Constâncio, filho de Constantino o Grande, durante o episcopado de São Cirilo de Jerusalém.

A aparição deu-se precisamente no dia 7 de maio de 351, na terça-feira antes da Ascensão, pelas nove horas da manhã: foi visível durante muitas horas e para todos. Marcava no céu o espaço compreendido entre o Gólgota e o Monte das Oliveiras (18).

O caráter protetor e salvífico da Cruz, como determinante dessa festividade, vem sintetizá-lo a oração própria desse dia que assim diz:

Abre-me os lábios, ó Rei dos séculos, ilumina minha mente e meu espírito, e santifica minha alma para poder, ó Verbo, louvar tua Cruz venerada; envia teu Espírito e instrui-me, de sorte que possa exclamar com amor:

Salve, ó Cruz, glória do universo!
Salve, ó Cruz, fortaleza da Igreja!
Salve, inexpugnável bastião dos sacerdotes!
Salve, diadema dos reis!
Salve cetro do soberano Criador de todas as coisas!
Salve, ó Cruz, na qual Cristo aceitou padecer e morrer!
Salve, grande consolo dos aflitos, arma invencível no meio da luta!
Salve, Cruz, ornato dos anjos e proteção dos fiéis!
Salve, ó Cruz, pela qual foi o inferno derrotado!
Salve, ó Cruz, pela qual fomos redimidos!
Salve, lenho bem-aventurado! (19)

c) A procissão da preciosa e vivificadora Cruz, que se celebra no dia primeiro de agosto. Tal como a que coincide com o Terceiro Domingo da Quaresma, também essa festa teve origem em Constantinopla. A relíquia da Cruz ia expondo-se em diversas igrejas, retomando ao palácio imperial a 14 de agosto; longa procissão estacional, pois, com demoradas estações nas várias igrejas. A finalidade era conjurar as enfermidades motivadas pelos calores estivais, por um lado, e santificar, por outro, as ruas da "cidade construída por Deus" (20)

Um dos hinos da festa nos manifesta a profunda veneração de que era objeto nesse dia a Cruz do Senhor, assim como a confiança depositada nela:

Veneremos a Cruz preciosa,
remédio universal e fonte de santidade.
É lenitivo das dores, desterra a enfermidade
e livra de todo sofrimento os enfermos.

E agora, após breve análise sobre as festas litúrgicas, nas quais as igrejas de tradição bizantina dedicam especial atenção à Cruz, detenhamo-nos para refletir sobre a festividade da Exaltação:

A festa da "Exaltação Universal da preciosa e vivificadora Cruz" surge em Jerusalém. Lê-se em um discurso do monge Alexandre (21) sobre essa festividade que a imperatriz:

Helena - mãe de Constantino, o Grande - assegurava ter tido uma visão celeste, na qual se ordenava ir a Jerusalém para descobrir os santos lugares durante tanto tempo ignorados (.. .). Ante a dúvida e as vacilações de não poucos, exorta todos a uma fervorosa oração. Logo vem a ser descoberto por aquele bispo o lugar da divina Paixão, onde se tinha colocado a estátua da impuríssima Vênus. Com a autoridade que lhe outorga seu cargo, a imperatriz mandou, então, destruir o templo do demônio. Feito isso, de imediato descobriu-se o sepulcro de Jesus Cristo, aparecendo, pouco depois, três cruzes. Após busca diligente, encontraram-se também os cravos.

A imperatriz quis saber imediatamente qual das três cruzes era a de Jesus Cristo. Achando-se ali gravemente enferma, quase à morte, uma nobre dama, aplicando-lhe as cruzes, pôde-se saber, no mesmo instante, qual era a Cruz desejada, uma vez que, com a aplicação da Cruz de Jesus Cristo, tocada pela graça divina, ergue-se do leito a enferma completamente curada e glorificando ao Senhor em altas vozes (...).

O imperador pede ao então bispo, Macário, que apresse a edificação das respectivas basílicas, enviando-lhe um arquiteto e grande soma em dinheiro, com a ordem expressa de que os sagrados edifícios (no Gólgota, em Belém, e no Monte das Oliveiras) se decorassem com o maior esplendor, de sorte que não houvesse nada igual no mundo (22)

No século V, o dia 13 de setembro é aniversário da dedicação das basílicas constantinianas. Segundo a peregrina Egéria, tinha-se determinado esse dia, alguns anos antes - talvez em 335 - por ser a data do descobrimento da Cruz (23).

Cirilo de Jerusalém, na XIII Catequese, que se realizara provavelmente em 347, diz textualmente:

A Paixão é real: verdadeiramente foi crucificado. E não nos envergonhemos disso. Foi crucificado. E não o negamos; pelo contrário, comprazemo-nos em afirmá-lo. Chegaria a envergonhar-me, se me atrevesse a negar o Gólgota que temos à vista; afastaria dos olhos o madeiro da Cruz que dessa cidade distribuiu-se como relíquias pelo mundo todo.

Reconheço a Cruz, porque conheço a ressurreição. Se o Crucificado tivesse permanecido em tal situação, não reconheceria a Cruz; apressar-me-ia, pelo contrário, em escondê-la, juntamente com meu Mestre. Como após a Cruz vem a Ressurreição, não me envergonho de falar longamente da mesma. (24)

A festa da Cruz, a 14 de setembro, difundiu-se rapidamente por todo o Oriente, eclipsando a comemoração da dedicação da basílica constantiniana (25). Em Roma, no século VI, celebrava-se a Exaltação no dia 3 de maio. Posteriormente - no século VII - começou a apresentar-se o madeiro da Cruz à veneração do povo, no dia 14 de setembro (26).

O resgate da Cruz pelo imperador Heráclio em 631 não veio senão incrementar e consolidar um culto já amplamente difundido.

As igrejas de tradição bizantina relacionaram a festa do dia 14 de setembro entre as do Senhor (despotika) - de primeira classe - e, portanto, entre as 12 grandes festividades litúrgicas. É precedida de uma vigília (preortia) e seguida de sete dias pós-festivos (meteortia), mais outro oitavo de despedida da festa (apodosis), que coincide com o dia 21 do referido mês de setembro.

A celebração litúrgica, muito simples em si, tem seu ponto mais alto no gesto do celebrante, que podemos ver refletido no Ícone. Vejamo-lo em detalhes.

No dia da festa, o celebrante, após pequena procissão, pára no centro da igreja; e levanta então, ao alto, a relíquia da Cruz.

A assembléia faz, ao mesmo tempo, a mais simples de todas as orações e mais própria de uma criatura ante a misericórdia do Deus criador: "Piedade, Senhor!" Repete-se 100 vezes a oração.

Repete o celebrante o gesto de elevar ao alto a Cruz, voltando-se para os quatro pontos cardeais, enquanto o povo reza, canta e exclama 100 vezes: "Piedade, Senhor!"

Deposita-se depois a Cruz em um grande recipiente cheio de flores e coloca-se sobre um tetrapodium no centro da igreja. O Clero e todos os fiéis, prostrando-se de joelhos, vão adorando a Cruz e recebendo uma flor das que serviram de enfeite à relíquia.
«Adoração da Cruz»

Pôde-se observar como os hinos e toda essa exposição falam sempre de «adoração» da Cruz. Pela única razão de que muito rapidamente a Cruz veio a ser a imagem do Crucificado e da sua Ressurreição: dois aspectos distintos, porém, inseparáveis, de um só mistério.

«Adoramos, Senhor, tua Cruz e glorificamos tua santa Ressurreição», é o tema mais comum dos hinos. Eis mais um exemplo do que foi dito:

Na Cruz, Cristo deu morte ao autor de nossa morte.
Devolveu a vida e a beleza a quem as tinha perdido;
e, num desdobramento de bondade e misericórdia,
restituiu-lhes o direito de cidadania no céu.

Na Cruz cancelaste, Senhor, o assentamento de nossa dívida.
Cantado entre os mortos, prendeste o tirano que reinava sobre eles; e com tua ressurreição, libertaste-nos dos laços da morte. (27)

Sobre o que deveriam ser tributadas as honras à Cruz, pronunciaram-se dois Concílios:

No Concílio Quinissesto de 692, os Padres prescreveram que se rendesse à santa Cruz «a adoração em espírito, nos lábios e nos sentidos». (28) E no segundo Concílio de Nicéia (787), concretiza-se a natureza exata da referida adoração: à santa Cruz, como aos ícones, deve-se tributar «adoração honorífica», «não culto propriamente dito» reservado somente a Deus. Porque «a honra dirigida à imagem passa ao protótipo, e o que adora a imagem, adora a pessoa nela representada». (29)

Os textos litúrgicos, homiléticos e epigráficos documentam como semelhante prescrição conciliar estava profundamente enraizada nos usos e costumes. (30)

André de Creta (660-740), por exemplo, disse claramente:

Nós adoramos a Cruz,
uma vez que nela bendizemos ao Crucificado. (31)

O mesmo atestam outros textos de origem mais humilde e, por isso, sem dúvida maiores expressões da verdadeira piedade dos fiéis. Seria bom exemplo a inscrição do século Vil, que faz falar assim à própria Cruz:

Sou a Cruz, salvaguarda do universo;
minha morada é a eternidade,
onde gozo de igual veneração à do Corpo imortal. (32)

PASSARELLI, Gaetano. O Ícone da Exaltação da Cruz. São Paulo: Ed. Ave Maria.

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