Fenômeno monástico comum e contemporâneo em diversos lugares do mundo cristão. Freqüentemente, fala-se do monaquismo egípcio como o movimento que deu início ao fenômeno monástico. É verdade que o Egito constitui um dos lugares tanto primários como fundamentais para o nascimento e o desenvolvimento do monaquismo. Mas este fenômeno não nasce primeiro e somente no Egito, mas em toda a bacia cristã do Mediterrâneo. É a Vita Antonii de Atanásio que transformará o Egito em um primus do monaquismo, mas insisto, um primus inter pares (em importância e cronologicamente). De fato, muitas vezes, fazendo uma história do monaquismo cristão em geral, tende-se a afirmar que ele teria nascido no Egito, em torno da grande figura de Santo Antão – e de certo modo também em torno da de Pacômio -, e conseqüentemente graças à difusão da Vita Antonii feita por Santo Atanásio e traduzida em diversas línguas já no próprio século IV, o fenômeno monástico teria se difundido para o cristianismo mediterrâneo Oriental e Ocidental. Sem nada tirar da importância e da influência ocorrida por causa da Vida de Santo Antão, gostaria logo de apresentar a minha convicção de que o fenômeno monástico – ou se quereis, o nascimento e o crescimento do fenômeno ascético monástico cristão – vai além do Egito e de Antão, e começa antes de Antão e contemporaneamente, não somente no Egito, mas na Mesopotâmia, Síria, Palestina. Portanto, não se deveria falar tanto de monaquismo siríaco e copta em uma relação de filiação com o Egito monástico do século IV, mas de uma relação de fraternidade. De qualquer modo, é verdade que o Egito permanecerá um ponto de referência para os outros monaquismos cristãos. Freqüentemente, as biografias dos monges siríacos falam de uma “viagem-peregrinação” ao Egito para ver… para encontrar…
Relação estreita entre monaquismo e Igreja local; entre bispos e monges. Com essa frase gostaria de indicar a relação estreita (não sempre pacífica, mas estreita) que desde o início liga o fenômeno monástico à Igreja local. Antão empenha-se na luta anti-ariana indo duas vezes a Alexandria para apoiar Atanásio. Efrém de Nisibi, que não foi monge, apresenta os bispos de Nísibi a quem assiste como diácono, com as virtudes que serão requeridas aos ascetas/monges. Severo de Antioquia, nas suas Homilías Catedrais, apresenta-se como um bispo zeloso da vida e das atividades dos monges. Empenho dos monges palestinos nas controvérsias cristológicas dos séculos V-VI. Cito ainda o caso dos monges que se tornam bispos, e sobretudo os exemplos dos bispos não-monges em precedência ao episcopado – que escrevem ou dão regras para os monges: Atanásio de Alexandria no âmbito egípcio, e Filoxeno de Mabbug e Severo de Antioquia no âmbito siríaco.
Por que a escolha de Antão e os Apoftegmas, ou seja, os Padres do Deserto? Um outro aspecto que encontramos lendo os testos monásticos antigos, os testos dos Pais do deserto é o tema da paternidade espiritual. No cristianismo oriental contemporâneo, encontramos uma clara linha de continuidade com o cristianismo das origens, com a Igreja dos Pais. Um dos fatores que creio seja decisivo para essa continuidade é a existência de figuras de pais espirituais nos quais, de algum modo, perpetua-se o carisma dos Pais do deserto . É através deles que se perpetua a tradição, que não é sinônimo de hábitos adquiridos, mas a transmissão de uma graça e de uma experiência espiritual que vivificam em cada época a vida dos cristãos
A paternidade espiritual, como indicada o próprio nome, é um carisma, um dom dado pelo Espírito Santo. Não se trata de uma instituição, mas de um carisma não vinculado a um ofício, nem ao sexo nem à idade daquele que o recebeu.
Relendo os textos monásticos do primeiro monaquismo, percebemos como o tema da paternidade espiritual está ligado a esse desde o início, e, além do mais, como ainda hoje é um ponto de extrema importância não somente para os monges, mas também para todos os cristãos de hoje. A paternidade espiritual é uma pedra de comparação que nos permite perceber e traçar com maior clareza – o quanto hoje isso seja possível-, o limite entre mística autêntica e misticismo, entre gnose verdadeira e falso misticismo.
O pai espiritual é aquele capaz de gerar filhos para o conhecimento e para o amor de Deus. Essa poderia ser uma primeira definição – ou uma primeira aproximação de definição – daquilo que é o pai espiritual no Oriente. Uma secunda parte dessa definição que a complementa, poderia ser: a paternidade espiritual “nasce” da filiação espiritual; quando há filhos espirituais – filhos que procuram verdadeiramente tornar-se filhos -, é então que se gera, que nasce a paternidade espiritual.
A paternidade espiritual no Oriente, ligada certamente ao fenômeno monástico, não vem mais contraposta ao papel hierárquico do ou dos pastores na comunidade monástica, na Igreja. O pai do mosteiro, igúmeno, superior, pode ser ou não o pai espiritual dos monges; o papel hierárquico não está sempre ligado àquele espiritual, mas também não está necessariamente desvinculado.
Um outro aspecto que será claro desde o início no tema da paternidade espiritual, é o fato de que ninguém é capaz de tornar-se pai espiritual de um outro, se antes ele mesmo não foi filho espiritual. Santo Antão o Grande, tido como pai dos monges e primícia dos anacoretas, antes de retirar-se no deserto, procura conselho de um velho asceta, como lembra Santo Atanásio na Vita Antonii 3,3, o qual, por sua vez, era ligado ao movimento ascético que está na base do primeiro monaquismo.
O pai espiritual representa para o discípulo, quer dizer, para aquele que se confiou a um pai, a paternidade de Deus que gera e ajuda a crescer na vida espiritual, especialmente por meio do conselho e da oração/intercessão. O pai espiritual torna-se tal porque também ele fez a experiência da filiação espiritual e aprendeu daquele que foi o seu pai. Nos textos dos monges do Deserto de Gaza no VI século, Barsanufio, João e Doroteo de Gaza, encontramos alguns aspectos importantes. As palavras do pai espiritual são recebidas pelo discípulo como palavras de Deus: essas coisas ditas por mim, ou antes, ditas por Deus, da minha parte, ou antes, da parte de Deus, Deus através de mim,… os guia. Da parte do pai espiritual, dos Anciãos, deve haver sempre uma profunda humildade, a consciência da própria fraqueza: Não sejas insensível à potência que cada dia se derrama sobre ti da parte de Deus através da minha miséria. De um lado, vemos a percepção clara e segura do carisma que é próprio deles, carisma que é uma participação na potência de Deus; de outro lado, a percepção, também essa clara e segura, da própria fraqueza e dos próprios pecados; esse equilíbrio é, sem dúvida, um dom do Espírito, caso contrário cairia ou no orgulho ou então na hipocrisia. Nessas cartas dos monges de Gaza, a relação espiritual pai-filho é uma relação feita através da sabedoria do Espírito, que orienta o crescimento do filho, e a caridade que leva o pai não somente a amar plenamente o filho, mas também a carregar sobre si as culpas e as penas dele. Essa paternidade espiritual manifesta-se especialmente no acompanhamento espiritual do discípulo e na abertura do seu coração. O acompanhamento que o pai espiritual faz do filho, exige da parte deste a abertura total da alma através da manifestação dos pensamentos que o dominam, e aos quais afrontará através do discernimento e da discrição do pai espiritual.
Ainda que o Evangelho (cf. Mt 23, 9) proíba chamar pai a qualquer outro homem que não Deus mesmo, Paulo (cf. 1Co 4, 15) falará a respeito do ministério daquele que como um pai gera a Cristo. Já nos textos monásticos mais arcaicos, os Apoftegmas, “visitar os anciãos é a regra dos antigos pais”, para eles é mais importante abrir o coração a um pai espiritual pedindo-lhe conselho, do que permanecer na solidão, rezando. Manifestando os pensamentos ao pai espiritual, revelando-os, eles se tornam impotentes. Ao pai espiritual nós nos confiamos tanto com amor, como com confiança e obediência. Por sua vez, o pai espiritual não deve improvisar-se como tal; antes de ser pai deve ter sido filho e ter aprendido a arte do discernimento dos espíritos através da freqüência assídua às Sagradas Escrituras e ter passado pela luta espiritual. Somente depois de conhecer as próprias fraquezas e a obra do Espírito Santo em si mesmo, pode, então, tornar-se mestre e médico dos outros.
Manel Nin OSB
Pontifício Instituto Oriental
Curso oferecido pelas Beneditinas de Tutzing, Roma 2011.
Tradução de D. Adriano Bellini OSB
Pontifício Instituto Oriental
Curso oferecido pelas Beneditinas de Tutzing, Roma 2011.
Tradução de D. Adriano Bellini OSB


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