domingo, 19 de agosto de 2018

Discurso sobre a Santa Transfiguração de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo


Festa da Santa Transfiguração de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo
Segunda ''Festa do Salvador'' em Agosto
06 de agosto -- Calendário Juliano

São Gregório Palamas, Arcebispo da Tessalônica

Para explicar a presente Festa e entender sua verdade é necessário que nos voltemos para o início da leitura do Evangelho de hoje: '' Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.'' (Mt.17:1). 

Antes de tudo devemos perguntar, a partir de quando o evangelista Mateus começou a contar os seis dias? Que tipo de dia é esse? O que indica a anterior mudança de expressão, quando o Salvador, ensinando aos seus discípulos, lhes diz: ''Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras”, e ainda : ''Em verdade vos declaro: muitos destes que aqui estão não verão a morte sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de seu Reino'' (Mt.16:27-28)? Isso quer dizer que é a Luz de Sua própria Transfiguração futura que Ele chama de Glória de Seu Pai e de Seu Reino. 

O Evangelista Lucas aponta e revela mais claramente ao dizer: ''Passados uns oitos dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar. Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.” (Lc 9:28-29). Mas como podem ambos serem reconciliados se um diz que o intervalo de tempo foi de oito dias entre as afirmações e a manifestação, enquanto o outro diz: ''depois de seis dias''?

Eram oito na montanha, mas só seis visíveis. Três, Tiago, Pedro e João, haviam subido com Jesus, e viram Moisés e Elias lá em pé e conversando com Ele. Entretanto, o Pai e o Espírito Santo estavam invisivelmente com o Senhor: O Pai, com Sua voz testificando que aquele era Seu Filho Amado, e o Espírito Santo brilhando com Ele na nuvem radiante. Assim, os seis eram na verdade oito, e não há contradição em relação ao oito. De modo similar, não há contradição entre os Evangelistas quando um diz ''depois de seis dias'', e o outro diz ''passados oito dias''. 

Mas esses dizeres com mais de um sentido nos apresentam um conjunto de mistérios ao lado desse sobre os que realmente se encontravam presentes na Montanha. É lógico, e todos que estudam racionalmente as Escrituras sabem, que os Evangelistas estão de acordo. Lucas falou de oito dias sem contradizer Mateus, que declara ''depois de seis dias''. Não há outro dia acrescentado para representar o dia em que estas afirmações foram pronunciadas, nem é somado o dia em que o Senhor foi transfigurado [como uma pessoa racional pode razoavelmente imaginar ter sido acrescentado aos dias de Mateus].

O Evangelista Lucas não diz ''depois de oito dias'' [como o Evangelista Mateus diz ''depois de seis dias''], mas sim ''passados oitos dias''. Mas onde os Evangelistas parecem se contradizer, eles na verdade apontam para algo maior e mais misterioso. De fato, por que eles dizem ''depois de seis dias'', mas o outro, ignorando o sétimo dia, tem em mente o oitavo dia? Porque a grande visão da Luz da Transfiguração do Senhor é o mistério do Oitavo Dia, isto é, do século futuro, a ser revelado após o mundo criado em seis dias ter passado.

E sobre o poder do Espírito Divino, através de Quem o Reino de Deus é revelado, o Senhor prediz: ''Há alguns aqui que não passarão pela morte sem que tenham visto chegar o Filho do Homem em Seu Reino'' (Mt. 16:28). Em todo lugar e de todas as formas o Rei estará presente, e todo lugar será Seu Reino, já que o advento do Reino não significa passar de um lugar para outro, mas sim a revelação do poder do Espírito Divino. Daí porque Ele diz: ''vem em poder''. E esse poder não se manifesta para pessoas ordinárias, mas para os que permanecem com o Senhor, isto é, aqueles que firmaram sua fé Nele como fez Pedro, Tiago e João, e especialmente aqueles que estão livres da corrupção natural. E precisamente por causa disso Deus se manifestou sobre o Monte, por um lado descendo de Suas Alturas, e por outro lado, elevando-nos dos abismos da corrupção, já que o Transcendente tomou natureza mortal. Certamente, tal manifestação visível ultrapassa de longe os limites do alcance da mente, já que efetuado pelo poder do Espírito Divino. 

Assim, a Luz da Transfiguração do Senhor não é algo que vem a ser e depois se esvanece, nem está sujeita às faculdades sensoriais, embora seja contemplada por olhos corpóreos por curto tempo sobre uma montanha desimportante. Mas os iniciados ao Mistérios, (os discípulos) do Senhor passaram para além da carne, para o espírito, através de uma transformação de seus sentidos, efetuada no interior deles pelo Espírito, e foi desse modo que contemplaram em que medida o Espírito produziu neles a bem aventurança para que vissem a Luz Inefável. Aqueles que não alcançaram esse ponto conjecturaram que os escolhidos dentre os Apóstolos contemplaram a Luz da Transfiguração do Senhor por meio de uma faculdade criada e sensual, e desse jeito tentaram reduzir ao nível da criatura não apenas essa Luz, o Reino e a Glória de Deus, mas também o Poder do Espírito Divino, através de Quem os Mistérios Divinos são revelados. Com toda a probabilidade, tais pessoas não ouviram as palavras do Apóstolo Paulo: ''Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus'' (1 Cor 2:9-10). [...]''

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