37 Ora, de dia ensinava no templo, e à noite, saindo, pousava no monte chamado das Oliveiras. 38 E todo o povo ia ter com ele no templo, de manhã cedo, para o ouvir. 1
Aproximava-se a festa dos pães ázimos, que se chama a páscoa. 2 E os principais sacerdotes e os escribas andavam procurando um modo de o matar; pois temiam o povo. 3 Entrou então Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, que era um dos doze; 4 e foi ele tratar com os principais sacerdotes e com os capitães de como lho entregaria. 5 Eles se alegraram com isso, e convieram em lhe dar dinheiro. 6 E ele concordou, e buscava ocasião para lho entregar sem alvoroço. 7 Ora, chegou o dia dos pães ázimos, em que se devia imolar a páscoa; 8 e Jesus enviou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos.
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Testemunho Dos Santos Padres da Igreja
“O Pai deposita todas as coisas em suas mãos”
Era antes da Festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai. Este nome, “Páscoa”, significa “passagem” ou “trânsito”, e possui origem muito antiga, porque teve princípio no grande mistério que o Senhor realizou quando tirou o povo de Israel do Egito. Naquela ocasião o Senhor passou pelo Egito ferindo todos os primogênitos e libertando os filhos de Israel; e os filhos de Israel, ao passarem daquela noite da servidão para a liberdade, para a terra da promissão e à herança da paz, isto foi figura e mistério de que o Senhor nesta festa passaria deste mundo para o Pai celestial. Figurou também que, com o seu exemplo, todos os seus servos, os católicos, teriam de expulsar de si os desejos e o amor das coisas terrenas, e, abraçando as virtudes e a justiça das boas obras, procurariam subir a soberana herança que o Senhor lhes tem preparada no céu.
São João nos descreve admiravelmente a maneira que o Senhor passou deste mundo ao Pai no seu Evangelho: tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Quer dizer: tanto os amou, que com o seu amor findou a vida corporal, tendo de passar logo da morte à vida para subir ao Pai celestial; porque na verdade ninguém pode ter maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. E assim, de forma muito justa, os dois passos foram consagrados com sangue: um, o da lei, e outro, o do Evangelho. O da lei, com o sangue do cordeiro pascal, e o do Evangelho, com o sangue do qual diz o sagrado apóstolo: Este Senhor, amados irmãos, foi sacrificado derramando seu sangue na árvore da cruz, e o cordeiro da lei era sacrificado derramando seu sangue em forma de cruz, espargindo-o sobre o umbral, e no alto da porta.
Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou a toalha e amarrou-a na cintura. Tendo que falar o sagrado evangelista da profundíssima humildade que o Senhor mostrou enquanto homem, primeiro conta a grandeza de sua divindade, e a eternidade de seu poder soberano; desta maneira nos mostra ser Deus e homem verdadeiro, e nos lembra aquele mandamento em que o Senhor nos ordena que cada um, quanto maior se percebe, tanto mais se humilhe em todas as coisas. Claro está que era verdadeiro homem aquele que pôde se relacionar e lavar os pés dos homens, o que pôde ser vendido por um homem, e pôde ser crucificado pelos homens. Este mesmo era verdadeiro Deus, pois o Pai deposita todas as coisas em suas mãos, e saiu de Deus, e volta para Deus.
O Senhor sabia muito bem que o diabo tinha posto no coração de Judas a intenção de traí-lo. Sabia bem que o Pai tinha colocado todas as coisas em suas mãos, e, entre estas coisas, entendia-se também aquele mesmo que o traía, e aqueles que o compravam, e a própria morte que havia de passar. Tudo estava em seu poder e debaixo do comando de sua majestade, e podia fazer de tudo isso o que quisesse, e com sua onipotência converter todo aquele mal em bem. Amados irmãos, ele sabia que saiu de Deus pela humildade da encarnação, e que havia de voltar a Deus pela vitória da ressurreição, não desamparando a Deus quando saiu dele para vir a nós, nem desamparando a nós quando voltou ao Pai. Tudo isso o sabia muito bem nosso Redentor, e, sabendo-o, teve por bem levantar-se da ceia, tirando as vestes, e lavar os pés de seus discípulos em testemunho de sua imensa piedade, e para o grande exemplo de nossa humildade.


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