E os principais dos sacerdotes e os escribas procuravam lançar mão dele naquela mesma hora; mas temeram o povo; porque entenderam que contra eles dissera esta parábola. E, observando-o, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra, e o entregarem à jurisdição e poder do presidente. E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É-nos lícito dar tributo a César ou não? E, entendendo ele a sua astúcia, disse-lhes: Por que me tentais? Mostrai-me uma moeda. De quem tem a imagem e a inscrição? E, respondendo eles, disseram: De César. Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E não puderam apanhá-lo em palavra alguma diante do povo; e, maravilhados da sua resposta, calaram-se.
“Para que Todos Levem Uma Vida Pacífica e Tranquila”
É preciso submeter-se não somente por temor do castigo, mas por consciência. O que significa isto de “não somente por temor?” Pois que além de obedecer – porque, caso contrário, te oporias a Deus e acarretarias sobre ti os castigos divinos e humanos –, deves fazê-lo porque a autoridade te é enormemente útil, já que te proporciona a paz e a administração política. A sociedade alcança inumeráveis bens graças aos seus chefes, e se desaparecessem tudo cairia. Não poderiam subsistir nem as cidades, nem as aldeias, nem mesmo as casas; nem o foro; nada se manteria de pé, tudo seria derrubado, pois os poderosos devorariam aos fracos. Portanto, mesmo que não existisse o temor ao castigo infligido ao desobediente, deverias submeter-te para não aparecer sem consciência nem gratidão para com o teu benfeitor.
Pela mesma razão, pagais impostos; os funcionários que os recolhem fazem-no como ministros de Deus. São Paulo expõe duas razões: a primeira, destinada a todos, cristãos ou gentios; a segunda, aos cristãos. Na realidade, todos os benefícios proporcionados pela autoridade, como a ordem, a paz, os serviços, as tropas, os ofícios comuns..., são assegurados e reconhecidos pagando os tributos. É necessário que o povo saiba os bens que recebe do Estado, para que contribua ao bem-estar do príncipe, e que também é justo que aqueles que dedicam sua vida a proteger a nossa estejam favorecidos decentemente por meio destas contribuições.
Expostas estas razões, úteis inclusive aos gentios, São Paulo atende aos cristãos e acrescenta outra: porque são ministros de Deus dedicados a isso. Esta é a sua vida e ocupação, que tu desfrutes da paz, e por isso em outra epístola te ordena que, além de lhes estar submetido, reze por eles, acrescentando: para que todos levem uma vida pacífica e tranquila.
Não me digas que alguns abusam de seu poder, pois o que deves observar é o bem desta constituição das coisas, e então repararás a grande sabedoria da lei que o ordenou assim desde o princípio.
Dai a cada um o que lhe é devido: seja imposto, seja taxa. Dai-lhes não somente dinheiro, mas também respeito e temor, um temor que não é medo, mas consideração. E não creias que isso te desonra, porque se o dás àquele que representa a Deus, é a Ele quem honras quando ao chegar ao príncipe te põe de pé e te descobres. E se isto o manda São Paulo tratando-se dos príncipes gentios, com muito mais cuidado há que observá-lo agora entre cristãos.
Não penses se és mais ou menos virtuoso. Não é tempo disso. Nossa vida está escondida em Cristo, em cuja aparição brilharemos todos em glória; por agora te apresenta sempre com temor diante do príncipe, pois Deus quer que este, criado por Ele, receba toda a sua fortaleza.
São João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla (séc. V).


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