domingo, 17 de junho de 2018

Do Tratado sobre a Oração do Senhor, de São Cipriano, bispo e mártir.



(Nn.4-6: CSEL 3,268-270)             (Séc.III)

Brote a oração do coração humilde.


            Haja ordem na palavra e na súplica dos que oram, tranquilos e respeitosos. Pensemos estar na presença de Deus. Sejam agradáveis aos olhos divinos a posição do corpo e a moderação da voz. Porque se é próprio do irreverente soltar a voz em altos brados, convém ao respeitoso orar com modéstia. Por fim, ensinando-nos, ordenou o Senhor orarmos em segredo, em lugares apartados e escondidos, até nos quartos, no que auxilia a fé por sabermos estar Deus presente em toda a parte, ouvir e ver a todos e na plenitude de sua majestade penetrar até no mais oculto. Assim está escrito: Eu sou Deus próximo e não Deus longínquo. Se se esconder o homem em antros, acaso não o verei eu? Não encho o céu e a terra? E de novo: Em todo lugar os olhos de Deus vêem os bons e os maus.

            Quando nos reunimos com os irmãos e celebramos como sacerdote de Deus o sacrifício divino, temos de estar atentos à reverência e à disciplina devidas. Não devemos espalhar a esmo nossas preces com palavras desordenadas, nem lançar a Deus com tumultuoso palavrório os pedidos, que deveriam ser apresentados com submissão, porque Deus não escuta as palavras e sim o coração. Com efeito, não se faz lembrado por clamores Aquele que vê os pensamentos, como o Senhor mesmo provou ao dizer: Que estais pensando de mal em vossos corações? E em outro lugar: E saibam todas as Igrejas que eu sou quem perscruta os rins e o coração.
            Ana, no Primeiro Livro dos Reis, como figura da Igreja, tem esta atitude, ela que suplicava a Deus não aos gritos, mas silenciosa e modesta, no mais secreto do coração. Falava por prece oculta e fé manifesta, falava não com a voz mas com o coração, pois sabia ser assim ouvida pelo Senhor. Obteve plenamente o que pediu porque o suplicou com fé. A Escritura divina declara: Falava em seu coração, seus lábios moviam-se, mas não se ouvia som algum e o Senhor a atendeu. Lemos também nos salmos: Rezai em vossos corações e compungi-vos em vossos aposentos. Através de Jeremias ainda o mesmo Espírito Santo inspira e ensina: No coração deves ser adorado, Senhor.

            O orante, irmãos caríssimos, não ignora por certo como o publicano orou no templo, com o fariseu. Não com olhos orgulhosos levantados para o céu nem de mãos erguidas com jactância, mas batendo no peito, confessando os pecados ocultos em seu íntimo, implorava o auxílio da misericórdia divina. Por que o fariseu se comprazia em si mesmo, mais mereceu ser santificado aquele que rogava sem firmar a esperança da salvação na presunção de sua inocência, já que ninguém é inocente; rezava, porém, reconhecendo seus pecados; e atendeu ao orante aquele que perdoa aos humildes.

Sao Cipriano e Santa Justina.

“Sobretudo Buscai o Reino de Deus e a Sua Justiça"



Ao ouvir estas palavras, que conclusões os discípulos tomarão e que decisões práticas adotarão? Certamente estas: abandonarão nas mãos de Deus a preocupação pelo alimento, e lembrar o que disse aquele santo varão: entrega a Deus teu cuidado, que ele te sustentará. Sim, ele dá abundantemente aos santos o necessário para a vida e certamente não mente ao dizer: Não estejais preocupados pela vida pensando o que vais comer, nem pelo corpo pensando com o que vais vestir... Vosso Pai já sabe que tendes necessidade de tudo isto. Sobretudo buscai o Reino de Deus e sua justiça; e tudo o mais vos será dado por acréscimo.

Era extremamente útil e inclusive necessário que aqueles que são investidos da dignidade apostólica tivessem uma alma livre da ambição de riquezas e nada desprezassem tanto como a acumulação de ofertas, contentando-se mais com o que Deus lhes proporciona, pois, como está escrito: a cobiça é a raiz de todos os males. Convinha, portanto, que a todo custo se mantivessem à margem e plenamente libertados daquele vício que é a raiz e mãe de todos os males, esgotando, por assim dizer, todo o seu empenho em ocupações realmente necessárias: em não cair sob o jugo de satanás. Desta forma, caminhando à margem das preocupações mundanas, subestimarão os apetites carnais e desejarão unicamente o que Deus quer.

E assim como os mais valentes soldados, saindo ao combate, não levam consigo mais que as armas necessárias para a guerra, assim também aqueles a quem Cristo enviava em ajuda da terra e a assumir a luta, a favor dos que estavam em perigo, contra os poderes que dominam este mundo de trevas; ainda mais, a lutar contra o próprio satanás em pessoa, convinha que estivessem libertados das fadigas deste mundo e de toda preocupação mundana de maneira que, bem cingidos, e com as armas espirituais nas mãos, pudessem lutar intrepidamente contra os que obstruem a glória de Cristo e semearam de ruínas a terra inteira; é um fato que induziram aos seus habitantes a adorar a criatura em vez do Criador e a oferecer culto aos elementos do mundo.

Tendo embraçado o escudo da fé, estejais revestidos da couraça da justiça e da espada do Espírito Santo, isto é, toda a Palavra de Deus. Com estes instrumentos, era inevitável que fossem intoleráveis para seus inimigos, sem levar entre seus apetrechos nada merecedor de mancha ou de culpa, ou seja, o afã de possuir, ajuntar lucros ilícitos e andar preocupados em guardá-los, todas estas coisas que afastam a alma humana de uma vida grata a Deus nem a permitem elevar-se a ele, mas antes lhe cortam as asas e a afundam em aspirações materiais e terrenas.

São Cirilo de Alexandria, Patriarca de Alexandria (séc. V)

A Justificação pela Fé:





Romanos 5:1-10

1 Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, 2 por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. 3 E não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, 4 e a perseverança a inteireza de caráter, e a inteireza de caráter a esperança; 5 e a esperança não nos desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. 6 Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. 7 Porque dificilmente haverá quem morra por um justo; pois poderá ser que pelo homem bondoso alguém ouse morrer. 8 Mas, Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. 9 Logo muito mais, sendo agora justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. 10 Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.

A Justificação pela Fé:

A «Orthodox Study Bible» (Bíblia Ortodoxa de Estudos), traz a seguinte observação: 
«Na maior parte da história da igreja, a salvação foi vista como compreendendo toda a vida: Os cristãos criam em Cristo, eram batizados e eram nutridos em sua salvação na Igreja. Os entendimentos dos ensinamentos da fé eram centrados em torno da Santíssima Trindade, da Encarnação do Filho de Deus e da expiação. 

Na Europa Ocidental durante o século XVI e antes, no entanto, uma justificável preocupação surgiu entre os Reformadores sobre a compreensão predominante de que a salvação dependia de obras humanas meritórias, e não da graça e misericórdia de Deus. A redescoberta deles de Romanos 5 os induziu a criarem o slogan: ‘Sola Fides’ (justificação apenas pela fé). 

O debate provocado pelos Reformadores no Ocidente, despertou um questionamento no Oriente Ortodoxo: Que novidade é esta que polariza a fé e as obras? Pois, desde a Era Apostólica ficou estabelecido que a salvação foi concedida pela misericórdia de Deus para homens e mulheres justos. Todos os batizados em Cristo foram chamados a n’Ele crer e a praticar boas obras. Uma oposição de fé versus obras não tem precedentes no pensamento Ortodoxo.» 

De fato, embora o Ensino Ortodoxo fale em «justificação pela fé», no entanto, o sentido não coincide totalmente com a fala Protestante, e nem é assimilado nas nossas Paróquias, na mesma forma que se dá nas Comunidades Protestantes.  

«A justificação pela fé é dinâmica, não estática. Para os cristãos ortodoxos, a fé é viva, dinâmica, contínua, nunca estática ou meramente pontual no tempo. A fé não é algo que um cristão exerce apenas em um momento crítico, esperando que tal experiência cubra todo o resto de sua vida.  

A verdadeira fé não é apenas uma decisão, é uma forma de vida. Assim, o cristão ortodoxo vê a salvação em pelo menos três aspectos: 1. Eu fui salvo, juntando-me a Cristo no Santo Batismo; (Rom. 6:1-6); Eu estou sendo salvo, crescendo em Cristo através da vida sacramental da Igreja (Efésios 4:1-13); e serei salvo, pela misericórdia de Deus no Juízo Final (Rom. 5:1,2). 

A ‘Justificação pela Fé’, embora para os Ortodoxos não seja a principal doutrina do Novo Testamento, como é para os Protestantes, não representa nenhum problema.» (Orthodox Study Bible).  
Contudo, a Ortodoxia faz uma objeção ao ensino Protestante de uma justificação unicamente pela fé, pois isto contradiz a Escritura que afirma: 

«Vede, então, que um homem é justificado também pelas obras e não somente por fé» (Tiago 2:24). Somos "justificados pela fé, além das obras da lei" (Romanos 3:28), mas, em lugar algum a Escritura diz que somos justificados pela fé «sozinha». Pelo contrário, a fé por si, se não tem obras, «está morta» (Tiago 2:17).  

Percebendo a fragilidade do ensino da justificação tão somente pela fé, é que Martinho Lutero, para se livrar desta debilidade, resolveu desqualificar a Carta de São Tiago, chamando-a de «Epístola de Palha». E aqui está sua grande contradição: logo ele, que defendia a «Sola Escritura», quando esta contradiz o seu raciocínio, ele preferiu ficar com o seu entendimento em detrimento do ensino bíblico, desqualificando o Texto Sagrado. 

Retomando o ensino Ortodoxo. «Como cristãos, não estamos mais sob as exigências da Lei do Antigo Testamento (Rm 3:20), porque Cristo cumpriu a Lei (Gál 2,21; 3: 5, 24). Pela misericórdia de Deus, somos trazidos para um novo relacionamento em aliança com Ele. Nós, os que cremos, recebemos entrada em Seu Reino por Sua graça. Através da Sua misericórdia, somos justificados pela fé e capacitados por Deus para sempre, realizando obras ou ações de justiça que Lhe trazem glória. (Orthodox Study Bible).

Marcos Vinícius 

sábado, 16 de junho de 2018

SÃO TEÓFANO O RECLUSO SOBRE O CONTROLE DA IMAGINAÇÃO E DA MEMÓRIA



''Após falar do controle dos sentidos exteriores, devemos falar também de como controlar a imaginação e a memória; já que, na opinião da maioria dos filósofos, a imaginação e a memória não são nada além de impressões deixadas por todas as coisas sensoriais que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos. Podemos dizer que a imaginação e a memória são um sentido interno geral que visualiza e recorda de todas as coisas que os cinco sentidos externos experimentaram. De certa maneira, os sentidos externos e os objetos sensoriais se assemelham a um selo, e a imaginação à impressão deixada pelo selo.

A imaginação e a memória nos são dados para usarmos quando nossos sentidos externos estiverem em repouso ou quando não tivermos os objetos sensoriais que passaram diante deles. Já que nem sempre podemos estar diante dos objetos que vemos, ouvimos, saboreamos, cheiramos e tocamos, os evocamos à nossa consciência por meio da imaginação e da memória, nas quais eles foram impressos, e desta maneira os examinamos e consideramos, como se estivessem concretamente presentes.

Por exemplo: você um dia visitou Smyrna, e depois nunca mais a viu com seus olhos corporais. Ainda assim, sempre que queira, você pode visualizar Smyrna por meio do sentido interior, isto, pela imaginação e pela memória, e pode vê-la de novo como é em seu aspecto, dimensões e disposições atuais. Isso não significa que sua alma te deixa e vai para Smyrna, como alguns ignorantes pensam; simplesmente quer dizer que você vê a imagem de Smyrna que está impressa em você.

Esta visualização de objetos sensoriais incomoda e perturba muito as pessoas que anseiam permanecer sempre com Deus: pois distraem a atenção e a carregam para objetos vãos e até mesmo pecaminosos, confundindo a boa ordem de nosso estado interior. Sofremos com isso não apenas quando acordados, mas também nos sonhos, cujas impressões podem durar por vários dias.

Dado que a imaginação é uma força desprovida de razão e age na maior parte das vezes mecanicamente, obedecendo às leis de associação de imagens, enquanto a vida espiritual é a imagem da pura liberdade, concluímos que sua atividade é incompatível com esta última forma de vida. Assim sou forçado a oferecê-los certos conselhos sobre este assunto. 

Saibam que Deus está além de todos os sentidos e coisas sensoriais, além de toda forma, medida e lugar; é totalmente sem forma e imagem e, embora presente em todas as coisas, está acima de todas elas; portanto Ele está além de tudo imaginável. Nenhuma imaginação pode ser estabelecida em relação a Deus, pois Ele excede toda a mente (Callistus e Inácio ch. 65, citando São Máximo). Se segue, então, que a imaginação é um poder da alma que por sua própria natureza não é capaz de entrar no reino da união com Deus. 

Saibam também que Lúcifer, o primeiro entre os anjos, se encontrava acima de toda imaginação frívola e fora de toda forma, cor ou sentido -- uma mente incorpórea, sem forma, sem substância, imaterial. Mas ele deu asas à sua imaginação e preencheu sua mente com fantasias de igualdade com Deus, e assim caiu da simples imaterialidade de uma mente sem forma, sem imagem, sem paixões para uma grosseira imaginação, complexa e multiforme [como acreditam alguns teólogos], e de um anjo impassível, imaterial e sem forma se tornou um diabo, de certo modo material, multiforme e sujeito a paixão. Assim também ocorreu com seus servos, os demônios. São Gregório do Sinai escreveu sobre eles: ''Ele foram já foram Nous, mas caindo da imaterialidade e pureza, cada um deles adquiriu certa grosseria material, uma carne de acordo com o nível e natureza de seus atos, cuja prática os qualificou. Pois como o homem eles perderam as delícias dos anjos [o sabor angélico ou as delícias dos céus angélicos] e se tornaram desprovidos da beatitude divina; também como nós começaram a procurar prazer na terra, quando se tornaram materiais e adquiriram o hábito das paixões materiais'' (ch. 123 Philokalia). Por esta razão os Santos Padres chamam o diabo de pintor, uma serpente com muitas formas, se alimentando do pó das paixões, um semeador de fantasias, e outros nomes similares. A palavra de Deus o representa como encarnado em um dragão, com cauda, costelas, pescoço, narinas, olhos, garras, boca, carne e outros membros parecidos. Leia nos capítulos 40 e 41 do livro de Jó. Compreenda, amado, que desde que esta fantasia multiforme é uma invenção e criação do diabo, é muito bem quista e útil para que ele consiga nossa ruína. Os Santos Padres corretamente a chamaram de ponte, por meio da qual os demônios homicidas entram em nossa alma, com ela se misturam e a tornam uma colmeia de zangões, uma habitação de pensamentos impiedosos, maus e horríveis e de todos os tipos de impureza de corpo e de alma. 

Saibam que de acordo com São Máximo, um grande teólogo, o primeiro homem, Adão, foi também criado por Deus sem imaginação. Sua mente, pura e livre de imagens, funcionava de tal modo que não adquiria imagens sob a influência dos sentidos ou das coisas sensoriais. Não fazendo uso deste poder inferior da imaginação, o homem não visualizava os contornos, formas, dimensões ou cores das coisas, mas com o poder mais elevado da alma, que é o pensamento, ele contemplava de modo puro, imaterial e espiritual somente as ideias puras das coisas ou seu significado interior. Mas o diabo, perseguidor da humanidade, tendo ele mesmo caído por causa de seus sonhos de igualdade com Deus, instilou na mente de Adão que ele também era igual a Deus e foram estas as fantasias que levaram Adão à queda. Da vida sem imagens, semelhante a dos anjos, para a vida multiforme e sensorialmente complexa, imersa em imagens e fantasias -- o estado dos animais desprovidos de razão. Pois estar imerso em imagens ou nelas viver ou sob sua influência é a qualidade dos animais irracionais, e não dos entes possuidores de razão. 

Depois que o homem caiu deste estado, quem pode dizer para quais paixões, para quais más disposições e para quais erros ele foi levado por suas fantasias? Ele encheu as doutrinas morais com várias delusões, a física com vários ensinamentos errados, a teologia com fábulas e com dogmas inverossímeis e sem sentido. Não só os pensadores antigos, mas também aqueles mais recentes, desejando especular e discursar sobre Deus e sobre os divinos mistérios, que são simples e inacessíveis à imaginação e fantasia [já que devem ser operações da parte mais elevada da alma -- a mente] abordaram este tema sem antes purificarem sua mente das formas apaixonadas e das imagens ilusórias das coisas sensoriais, e assim encontraram mentiras em vez da verdade. E, o que é particularmente grave, suas almas e corações se abraçaram a estas mentiras e eles se agarram a elas como se fossem expressões da realidade. Então, em vez de teólogos, eles se tornaram contadores de fábulas, de acordo com os Apóstolos, se entregando a uma mente réproba (Rom. 1:28). (Sobre isto, leia o fim da epístola a São Simeão, de Santo Isaac o Sírio, ch. 55)

Assim, meu irmão, se você deseja se libertar fácil e efetivamente destes erros e paixões, se busca escapar destes vários ardis e redes do diabo, se aspira se unir a Deus e obter a luz e verdade divina, entre corajosamente em batalha com sua imaginação e combata com toda a sua força para retirar de sua mente todas as formas e cores, todas as imagens e memórias de coisas sensoriais, sejam boas ou más. Pois tudo isto obscurece e mancha a pureza de nossa mente, tornando seu imaterial estado em algo grosseiro e apaixonado. Pois praticamente nenhuma paixão de corpo ou alma pode se aproximar da mente exceto através da visualização das coisas sensoriais correspondentes. Portanto, tente manter a mente sem cores, imagens e formas, pura tal como Deus a criou. 

Mas você só pode conseguir isso voltando sua mente para si mesma, aprisionando-a no pequeno espaço de seu coração e do inteiro homem interior, e ensinando-a constantemente a permanecer interiorizada ou em oração oculta, clamando internamente: ''Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim!'', ou mantendo-se em vigilância, se examinando, mas, acima de tudo, contemplando Deus e encontrando repouso Nele. Quando uma serpente precisa trocar de pele, abre passagem com dificuldade por algum espaço pequeno, como os naturalistas nos dizem; assim também a mente, forçando-se através do pequeno caminho do coração e da prece mental da oração do coração, se despe das vestes da imaginação das coisas sensoriais e das danosas impressões dos sentidos, tornando-se pura, brilhante e apta à união com Deus por meio da semelhança com Ele, que é então conquistada. Repito: Quanto mais estreita for a passagem por qual corre a água, mais ela é empurrada adiante e mais sutil emerge. Do mesmo modo, quanto mais a mente é comprimida pelo treino secreto no coração e pela atenção a si mesma, mais fina e forte se torna e, se elevando, fica mais inacessível a todas as paixões e sugestões de pensamentos e a todas as imagens de coisas, não apenas sensoriais mas também mentais, já que todas elas permanecem do lado de fora e não podem entrar. Aqui vai uma outra ilustração, ainda mais precisa. Quando os raios de sol são dispersos no ar e desligados uns dos outros, ficam menos brilhantes e quentes do que quando se encontram concentrados em um só ponto por meio de determinadas lentes; pois aí sim eles produzem uma luz ofuscante e um calor abrasador; assim também, quando a mente está recapitulada no centro do coração pela atenção a si mesma e pelo treino secreto, se torna portadora da luz e ardente, dispersa a escuridão da matéria e da paixão e queima e destrói todas as imagens e movimentos materiais e apaixonados. 

Este é o primeiro e principal método de controle sobre a imaginação e a memória, que você, bem amado, deve praticar constantemente. Por meio dele, você não apenas retificará estes poderes da alma, mas também apagará deles todos os traços e restos das impressões anteriormente recebidas e das imagens das coisas sensoriais, que excitam e alimentam as paixões. Mas quanto mais efetivo e frutuoso é este método, quanto mais difícil ele é, menos são as pessoas que o usam nos dias de hoje. Eu diria inclusive que poucos são os homens que acreditam em seu poder, especialmente entre os sábios e professores, não somente leigos mas também do clero; não querendo acreditar no ensinamento do Espírito Santo e de um grande número de Santos Padres, que indicaram este método no livro sagrado da Filocalia, que é mais precioso do que uma joia, eles se tornam justamente privados dos frutos do Espírito, que alguns homens sem educação e iletrados conquistam. Pois, de acordo com a palavra do Salvador, Deus tornou ''estas coisas ocultas aos sábios e entendidos, e as revelou aos pequeninos'' (Lucas 10:21); já que aqueles que não acreditam no poder desta ação interior e não a praticam não podem entender o quão benéfica é, tal como diz o profeta: ''Se você não tiver fé, certamente não permanecerá'' (Isaías 7:9).

Quando você notar que sua mente está fatigada e não permanece mais nesta prece de mente e coração, então use o segundo método, a saber, saia e aproveite a liberdade nas contemplações e reflexões espirituais e divinas, tanto aquelas sugeridas pelas Escrituras Sagradas quando aquelas inspiradas pela criação de Deus. Tais reflexões espirituais são adequadas à mente, já que são sutis e espirituais, e assim não a tornam grosseira ou aprisionam nas coisas externas. Pelo contrário, satisfazendo em certa medida sua sede pelo movimento sem entraves em seu próprio domínio, elas a dispõe por seu teor ao retorno rápido ao interior do coração e à união com Deus através da imersão na recordação interior Dele tão somente. Daí porque disse São Máximo: ''A ação solitária não pode tornar a mente impassível a menos que esteja também devotada a várias contemplações espirituais.'' Ainda assim tome cuidado para não se focar apenas na parte corpórea da criação de Deus, seja ela objetos materiais ou seres vivos, enquanto você ainda estiver sujeito à paixão. Pois, segundo São Máximo, neste caso a mente não está ainda liberta de procurar com paixão pelos objetos sensoriais, e assim, em vez de passar para os pensamentos espirituais e imateriais que neles estão escondidos, é atraída somente por sua beleza e aspecto exterior e, gozando neles, pode ser levada a falsas lições por causa do apego a elas -- um perigo ao qual sucumbiram muitos dos filósofos naturais. 

Ou ainda use o terceiro método de relaxar e dar descanso à sua mente, refletindo nos mistérios da vida e paixão do Senhor, isto é, em Seu nascimento em uma caverna, circuncisão, Sua apresentação a Deus no templo, Seu batismo no Jordão, seu jejum de quarenta dias no deserto, Sua pregação dos Evangelhos, Seus múltiplos milagres, Sua transfiguração do Monte Tabor, Sua purificação dos pés dos discípulos e na Instituição dos divinos mistérios na última ceia, na traição [de Judas], Sua paixão, crucificação e sepultamento, Sua ressurreição e ascensão aos Céus, os variados sofrimentos dos mártires e os jejuns estritos da ascese praticada ao longo dos anos pelos Santos Padres. 

De igual modo, para tornar seu coração contrito e incitar sentimentos de arrependimento, você pode pensar também na hora terrível da morte, no Dia Terrível do Juízo, nas várias formas de eterno tormento -- oceanos de fogo eterno, masmorras escuras do inferno, a melancolia do Tártaro, os vermes insones, a vida com os demônios. Pense também na paz e alegria indizíveis dos jutos, do reino dos céus, na glória eterna e beatitude incessante, na voz dos que se banqueteiam, na perfeita união com Deus, na companhia perene e comunhão com os anjos e os santos. 

Se, meu irmão, você apagar tais pensamentos e imagens do pergaminho de sua imaginação, você não apenas se libertará destas memórias equívocas e maus pensamentos, mas conquistará grande louvor no Dia do Juízo para seus empreendimentos, assim como São Basílio o Grande intuiu em seu capítulo sobre a virgindade, dizendo: ''Todo homem, enquanto ainda na carne, é como um pintor que pinta uma imagem em um lugar secreto. Quando, tendo terminado sua pintura, ele a exibe, é louvado pelos espectadores se escolheu um bom tema e o realizou bem, e é criticado se o objeto escolhido é ruim ou mal pintado. Da mesma forma, cada homem, quando chega o Julgamento de Deus após a morte, será louvado e acarinhado por Deus, pelos anjos e pelos santos, se tiver adornado sua mente e imaginação com imagens e representações luminosas, divinas e espirituais; mas, ao contrário, será condenado e envergonhado se tiver preenchido sua imaginação com figuras vergonhosas e apaixonadas. São Gregório de Salonika expressou seu maravilhamento pelo modo com que os efeitos das coisas sensoriais que afetam a alma através da imaginação trazem ou iluminação mental, levando à felicidade eterna, ou escuridão mental, levando ao inferno.'' (Filocalia grega 969).

Saibam, entretanto, que não quero dizer que vocês devam se ocupar apenas de tais pensamentos. Vocês devem usá-los só algumas vezes, até que sua mente, cansada da concentração no coração, descanse. Quando descansada, retornem novamente ao coração e forcem-na a se manter lá sem fantasias ou imagens, em uma lembrança cardíaca de Deus. Pois assim como os moluscos e crustáceos não encontram repouso em nenhum lugar exceto em sua casa, assim também a mente só pode encontrar naturalmente a paz na câmara do coração e no homem interior, onde ele se abriga como em uma fortaleza; e então combater de forma bem sucedida uma guerra contra os pensamentos, inimigos e paixões também lá escondidos, dentro dele, embora a maior parte das pessoas não os conheça.

Que estes pensamentos e paixões estão ocultos dentro de nós, no coração, e saem de lá pra nos combater não é pensamento meu. Ouçam o que diz o Senhor: ''Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. Eis o que mancha o homem.” (Mateus. 15:19-20). E o fato de que nossos inimigos, os demônios, escondem-se próximo do coração não é invenção minha. Assim ensinam os Santos Padres. São Diadochus é o mais explícito deles, quando diz que antes do santo batismo a graça divina move um homem para o bem a partir do exterior, enquanto satã está escondido nas profundezas do coração (Philokalia 4:76). Entretanto, como ele diz mais adiante, até mesmo após o batismo nossos inimigos tem permissão para entrar nas profundezas de nossos corpos e alcançar a superfície de nosso coração, como um teste para nossa vontade. De lá eles sujam a alma com os humores das luxúrias carnais. São Gregório o Teólogo ensina o mesmo, explicando o que o Senhor disse do espírito imundo que saiu de um homem, e que então retornou mais uma vez, tornando o último estado daquele homem pior do que o primeiro (Mateus 12:43-45); São Gregório aponta que o mesmo ocorre com os batizados se não tomarem conta do coração. ''O espírito imundo'', diz ele, ''banido pelo batismo, e não ligando por estar sem casa, busca repouso, andando aqui e ali; não encontrando lar, retorna à casa da qual foi expulso, pois ele não tem vergonha. Se ele notar que Cristo é foco da atenção e do amor do batizado, e está estabelecido e habita no lugar do qual ele foi expulso, isto é, no coração, ele não consegue entrar e mais uma vez vai embora. Mas se ele notar o lugar vazio, por ninguém ocupado, por causa da ausência de concentração e memória de Deus, ele entra apressadamente, e com malícia maior do que antes''. Tenho falado intencionalmente sobre isso para exortá-los fortemente a permanecerem incessantemente no coração com a lembrança de Nosso Senhor e Salvador, e para orarem a Ele, se quiserem ser vitoriosos nos problemas causados pelos movimentos e pensamentos apaixonados que assaltam o coração. Quando vocês estiverem lá com o Senhor, o inimigo não ousará se aproximar.

Mas acima de tudo aquilo que eu disse, mantenham vigilância sobre vocês e não deixem a imaginação e memória lembrar das coisas previamente vistas, ouvidas, saboreadas, cheiradas e tocadas, especialmente se havia algo vergonhoso e indecoroso nelas. É isto que constitui eminentemente nossa batalha, e é mais difícil e persistente do que lutar contra os sentidos ou contra seu uso. Todos os que lutam sabem disto por experiência. É fácil rejeitar alguma tentação através de um ou outro sentido; mas é muito difícil controlar a imaginação e a memória desta tentação, uma vez que sejam aceitas. Por exemplo, ver ou não ver um rosto, ou olhá-lo com ou sem paixão, não é tão difícil e não exige muito esforço; mas depois de tê-lo visto e olhado com paixão, banir de sua memória a imagem daquele rosto já não é tão fácil, demanda muito esforço e não menor batalha interior. E o inimigo pode jogar com nossas almas como se fossem uma bola, levando nossa atenção de uma memória a outra, agitando desejos e paixões por trás deles, e assim mantendo vocês sempre em um estado apaixonado. Portanto lhes digo: permaneçam despertos, e, acima de tudo, vigiem a imaginação e a memória.''

São Teófano o Recluso.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Das Homilias sobre o Livro de Josué, de Orígenes, presbítero.

Do Livro de Josué 5,13―6,21

Conquista da cidade fortificada dos inimigos



Naqueles dias: 5,13 Estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos e
viu diante de si um homem de pé, com uma espada desembainhada na mão. Josué foi
até ele e perguntou: “Tu és dos nossos ou dos inimigos?” 14Ele respondeu: “Não. Sou o
chefe do exército do Senhor, e acabo de chegar”. Então Josué prostrou-se com o rosto
por terra e o adorou. Depois perguntou-lhe: “O que diz o meu Senhor ao seu servo?”
15O chefe do exército do Senhor respondeu a Josué: “Tira as sandálias dos pés, pois o
lugar que pisas é sagrado”. E Josué fez o que lhe foi ordenado.

6,1 Jericó estava fechada e fortificada por causa dos filhos de Israel, e ninguém ousava
sair nem entrar.

2O Senhor disse então a Josué: “Vê. Eu entreguei à tua mão Jericó, com seu rei e todos
os seus homens valentes. 3Vós, todos os homens de guerra, dai a volta em redor da
cidade, uma vez por dia. Assim fareis durante seis dias. 4Sete sacerdotes levarão sete
trombetas de chifre de carneiro diante da arca. No sétimo dia dareis sete voltas à cidade,
e os sacerdotes tocarão as trombetas. 5E, quando o som das trombetas se fizer mais
demorado e penetrante, e vos ferir os ouvidos, todo o povo levantará numa só voz um
grande clamor, e cairão os muros da cidade até aos fundamentos, e cada um entrará pelo
lugar que estiver à sua frente”.

6Então Josué, filho de Nun, chamou os sacerdotes e lhes disse: “Tomai a arca da aliança,
e que sete sacerdotes tomem sete trombetas e vão adiante da arca do Senhor”. 7E disse
ao povo: “Ide e rodeai a cidade, e quem estiver armado passe à frente da arca do
Senhor”.

8Logo que Josué acabou de falar, os sete sacerdotes tocaram as sete trombetas diante da
arca da aliança do Senhor. 9Todo o exército armado marchava à frente dos sacerdotes
que tocavam as trombetas, e o resto da multidão seguia atrás da arca, e o som das
trombetas retumbava por toda a parte. 10Josué tinha ordenado ao povo, dizendo: “Não
griteis nem façais ouvir a vossa voz e nenhuma palavra saia de vossa boca, até ao dia
em que eu vos disser: ‘Gritai!’ Então gritareis”. 11Assim, a arca do Senhor deu, naquele
dia, uma volta à cidade e, retornando ao acampamento, pernoitou ali.

12No dia seguinte, Josué levantou-se ainda de noite, os sacerdotes tomaram a arca do
Senhor, e sete deles 13tomaram as sete trombetas de chifre de carneiro e marcharam
diante da arca do Senhor, andando e tocando; e o povo armado ia adiante deles, e o resto
da multidão seguia a arca, e as trombetas ressoavam. 14E rodearam uma vez a cidade, no
segundo dia, e voltaram para o acampamento. Assim fizeram durante seis dias.

15Mas, no sétimo dia, levantando-se de madrugada, deram sete voltas à cidade,
conforme o mesmo cerimonial; somente naquele dia rodearam a cidade sete vezes.
16Quando os sacerdotes tocaram as trombetas na sétima volta, Josué disse ao povo:
“Gritai, porque o Senhor vos entregou a cidade. 17E a cidade, com tudo o que nela
houver, seja condenada ao extermínio, em honra do Senhor. Somente Raab, a prostituta,
será conservada com vida, bem como todos os que estiverem com ela em sua casa,
porque escondeu os mensageiros que enviamos. 18Quanto a vós, guardai-vos de tocar
alguma daquelas coisas consagradas ao extermínio, para que não sejais culpados de um
grande pecado, pois tornaríeis o acampamento de Israel condenado ao extermínio,
levando-o à desordem.19Mas tudo o que se encontrar de ouro e prata, de utensílios de
cobre e de ferro, seja consagrado ao Senhor e depositado no seu tesouro”.

20O povo lançou então um grande grito e as trombetas ressoaram. E, logo que a voz e o
som chegaram aos ouvidos da multidão, desabaram de repente as muralhas, e cada um
entrou pelo lugar que estava à sua frente, e tomaram a cidade. 21E mataram tudo o que
nela havia, homens e mulheres, crianças e velhos, bois, ovelhas e jumentos, tudo foi
passado ao fio da espada.


Das Homilias sobre o Livro de Josué, de Orígenes, presbítero

(Hom. 6,4: PG 12,855-856)

(Séc. III)

A tomada de Jericó.

Jericó, sitiada, tem de ser tomada. Como será vencida Jericó? Não se desembainha a
espada contra ela, não se arremete o aríete, nem se vibram as lanças. Somente se tocam
as trombetas sacerdotais, e os muros de Jericó desabam. Com freqüência vemos nas
Escrituras o nome de Jericó empregado como figura do mundo. No Evangelho, quando
se narra que o homem desceu de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos ladrões, sem
qualquer dúvida, refere-se àquele Adão que do paraíso foi lançado ao exílio do mundo.
Também os cegos em Jericó, aos quais Jesus restituiu a vista, eram figura daqueles que
neste mundo são vítimas da cegueira da ignorância e para os quais veio o Filho de Deus.

Portanto, esta Jericó, este mundo, irá cair. Pois a consumação dos tempos já foi bem
anunciada pelos Santos Livros.

Como se dará sua consumação? Por que meios? Ao som das trombetas, lê-se. De que
trombetas? Paulo esclarece. Escuta-o: Soará a trombeta e os mortos em Cristo
ressurgirão incorruptos e o Senhor mesmo, ao sinal dado, à voz do arcanjo e da
trombeta de Deus, descerá do céu. Então Jesus, nosso Senhor, vencerá com trombetas
Jericó e jogá-la-á por terra, de tal forma que só se salve a meretriz e sua casa. Virá, diz
ele, nosso Senhor Jesus, e virá ao som das trombetas.

Salvará aquela única que recebeu seus exploradores, que, tendo acolhido na fé e na
obediência seus apóstolos, os colocou nos aposentos de cima. Unirá, então, esta
meretriz à casa de Israel. Contudo não repitamos nem lhe lembremos a antiga culpa.
Outrora meretriz, agora, porém, é virgem casta e foi unida a um só varão casto, o Cristo.
Ouve o que o Apóstolo diz dela: Decidiu isso: a um só varão, Cristo, apresentar-vos
como virgem casta. Pertencia também a ela aquele que dizia: Fomos também nós
outrora insensatos, incrédulos, inconstantes, escravos de múltiplos desejos e volúpias.

Queres ainda mais acuradamente saber como a meretriz já não o é mais? Escuta Paulo
de novo: Assim também éreis vós, mas fostes lavados, fostes santificados no nome de
nosso Senhor, Jesus Cristo, e no Espírito de nosso Deus. Para poder escapar e não
perecer com Jericó, ela recebeu dos exploradores eficacíssimo sinal de salvação, uma
fita escarlate. Na verdade, pelo sangue de Cristo, esta Igreja toda inteira se salvará, no
mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem a glória e o império pelos séculos dos
séculos. Amém.

São Justino Mártir, o Filósofo, e seus companheiros em Roma 01 de junho -- Calendário Juliano.


No dia 01 de junho se comemora a memória de São Justino Mártir, que nasceu no ano 114 em Síquem, uma antiga cidade da Samaria. Seus pais eram gregos e pagãos. Desde a infância Justino revelava grande inteligência, amor pelo conhecimento e uma fervorosa devoção pela Verdade. 

Quando chegou à idade estudou em diversas escolas gregas de filosofia: estóicos, platonistas, pitagóricos, peripatéticos; e concluiu que nenhum desses ensinamentos pagãos revelava a via de conhecimento do Deus verdadeiro. 

Certo dia estava passeando em um lugar solitário fora da cidade e ponderando onde poderia buscar o caminho que levava à Verdade quando encontrou um ancião. Na conversa que se seguiu ele revelou a Justino a essência da doutrina cristã e o aconselhou a procurar respostas para todas suas questões na meditação sobre as Sagradas Escrituras. 

''Mas antes de qualquer coisa'', disse o santo ancião, ''ore diligentemente a Deus, para que Ele abra para você os portões da Luz. Ninguém é capaz de compreender a Verdade a menos que seu entendimento seja agraciado pelo próprio Deus, que se Revela a todo aquele que O busca em oração e amor.'' 

Aos 30 anos de idade, Justino aceitou o Santo Batismo, passando a dedicar seu talento e vasto conhecimento filosófico para pregar o Evangelho entre os pagãos. Começou sua jornada por todo o Império Romano plantando as sementes da fé. ''Todo aquele que está apto para proclamar a Verdade e não o faz será condenado por Deus'', escreveu. 

São Justino abriu uma escola de filosofia cristã em que defendia os ensinamentos da Igreja e refutava a sofística pagã e as distorções heréticas do Cristianismo. Debateu tanto com o filósofo cínico Crescentio quanto com aqueles que defendiam os erros do gnóstico Marcião de Sinope. 

No ano 155, quando o Imperador Antonino pio [138-161] deu início a uma perseguição contra a Igreja, São Justino pessoalmente lhe enviou uma apologia em defesa de cristãos que haviam sido condenados à execução, Ptolomeu e Lucias [e um terceiro cujo nome permanece desconhecido]. Na Apologia ele demonstrou a falsidade da difamação contra os cristãos injustamente acusados por simplesmente sustentarem sua fé. A obra exerceu um efeito positivo sobre o Imperador, que mandou cessar a perseguição. Por ordem de Antonino Pio, São Justino viajou para a Ásia Menor, onde a perseguição era particularmente severa. Ele proclamou as mensagens jubilosas do edito imperial por todas as cidades e pelos campos. 

Um debate entre São Justino e o Rabino Trypho se deu em Éfeso. O filósofo ortodoxo demonstrou a verdade da fé cristã com base nos escritos proféticos do Velho Testamento. São Justino providenciou um relato desse debate em sua obra ''Diálogo com Trypho, o Judeu''. 

Uma segunda Apologia de Santo Justino foi endereçada ao Senado Romano, no ano 161, logo depois de Marco Aurélio [161-180] subir ao trono. Quando retornou da Itália, pregou o Evangelho em todo lugar, convertendo muitos à verdadeira fé. Quando o santo chegou a Roma, o invejoso Crescentio, que Justino havia vencido em um debate, apresentou diversas acusações falsas contra ele perante uma corte romana. 

São Justino foi colocado sob guarda, torturado e martirizado em 165. Suas relíquias repousam em Roma. Os Santos Mártires Justino, Chariton, Euelpiso, Hierax, Peono, Valeriano, Justo e Charito sofreram com São Justino Filósofo no ano 166. Eles foram levados a Roma e atirados em uma prisão. Os santos confessaram com coragem sua fé em Cristo diante da corte do Prefeito Rústico. O Prefeito pediu que todos sacrificassem aos ídolos, e diante da recusa de todos sentenciou-os à morte.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

12 de Junho de 2018 (CC) 30 de Maio (CE) Santo Isaque, o Bondoso (383).



Durante a perseguição aos cristãos pelo Imperador ariano Valente, um ermitão, chamado Isaac, sentiu-se movido por Deus a abandonar a sua solidão e ir repreender o Imperador.

Assim, dirigindo-se à Constantinopla, advertiu várias vezes ao Imperador Valente de que, se não cessasse a perseguição aos cristãos, e se não devolvesse a eles as igrejas tomadas e dadas aos hereges, uma grande catástrofe lhe esperava, assim como, um fim terrível.

Valente fez pouco caso das pregações do eremita, e o mandou prender.

A profecia se cumpriu pouco tempo depois, com Valente deposto e, mais tarde, morto na batalha de Andrinópolis. Teodósio, sucessor de Valente, devolveu a liberdade a Santo Isaac, por quem sempre professou grande veneração.

O servo de Deus Isaac voltou a viver retirado em solidão, atraindo para junto de si um grande número de discípulos. Estes, recusando-se a abandoná-lo, apesar das insistentes ordens do santo, acabaram por obrigá-lo a fundar um monastério que, segundo se afirma, foi o primeiro de Constantinopla.

O Santo eremita Isaac participou do I Concílio de Constantinopla, o segundo dos concílios ecumênicos, morrendo com idade já bem avançada.