segunda-feira, 1 de julho de 2019

: PRELÚDIO DA CRUZ

O SÁBADO DE LÁZARO




“Tendo completado o percurso dos 40 dias... nós suplicamos ver a Semana Santa da tua paixão.”

É com essas palavras, cantadas nas vésperas da sexta-feira de Ramos, que termina a quaresma, e que entramos na comemoração anual dos sofrimentos de Cristo, de sua morte e de sua ressurreição. Ela começa no sábado de Lázaro. A festa da ressurreição de Lázaro, somada à da entrada do Senhor em Jerusalém, é chamada nos textos litúrgicos: “Prelúdio da Cruz.” É portanto no contexto da grande semana que o significado desta festa dupla fica mais claro. O tropário comum à esses dois dias nos diz:

“Ressuscitando Lázaro, o Cristo confirmou a verdade da Ressureição Universal.”

Aqueles que estão familiarizados com a liturgia ortodoxa, conhecem o caráter singular e paradoxal dos ofícios desse sábado de Lázaro. Esse sábado é celebrado como um domingo, quer dizer que se celebra aí o ofício da Ressurreição quando, normalmente, o sábado é consagrado à comemoração dos defuntos. A alegria que ressoa no ofício sublinha o tema principal: a vitória próxima de Cristo sobre o Hades. Na Bíblia, o Hades significa a morte e seu poder universal, a noite inevitável e a destruição que traga toda a vida, envenenando com suas trevas devastadoras o mundo inteiro. Mas eis que, pela ressurreição de Lázaro, “a morte começa a tremer”; é o começo de um duelo decisivo entre a vida e a morte, um duelo que nos dá a chave de todo o mistério litúrgico da Páscoa. Para a Igreja primitiva, o sábado de Lázaro era, o “anúncio da Páscoa”; de fato, esse sábado proclama e já faz aparecer a maravilhosa luz e a paz do sábado seguinte: o grande e santo Sábado, o dia do túmulo vivificante que dá a vida.

Compreendemos logo que Lázaro, “o amigo de Jesus,” personifica cada um de nós e toda a humanidade, e que Betânia, “a casa” do homem Lázaro, é o símbolo de todo o universo, habitat do homem. Todo homem foi criado amigo de Deus e chamado a esta amizade divina que consiste no conhecimento de Deus, na comunhão com ele, o compartilhar da mesma vida: “A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens” (João 1:4). E portanto este amigo bem amado de Deus, criado por amor, ei-lo destruído, aniquilado por um poder que Deus não criou: a morte. Deus é afrontado em sua obra por um poder que a destrói e torna nulo seu desígnio. A criação é apenas tristeza, lamentação, lágrimas e finalmente morte. Como é possível? Essas questões se encontram latentes no texto detalhado que João nos faz da vinda de Jesus à tumba de seu amigo. “Uma vez chegado à tumba de seu amigo,” diz o evangelista, “Jesus chorou” (João 11:35). Por que ele chora, uma vez que ele sabe que dentro de um instante ele ressuscitará Lázaro à vida?

Os hinógrafos bizantinos não souberam compreender o sentido verdadeiro dessas lágrimas, atribuindo-as à sua natureza humana, uma vez que, de sua natureza divina ele detinha o poder de ressuscitar os mortos. Entretanto, a Igreja ortodoxa ensina claramente que todas as ações de Cristo são teândricas, isto é, ao mesmo tempo divinas e humanas, sendo as ações do único e mesmo Deus-Homem, o Filho de Deus encarnado. É o Homem-Deus que vemos chorar, é o Homem-Deus que fará sair Lázaro de seu túmulo. Ele chora. . . são lágrimas divinas; ele chora porque contempla o triunfo da morte e da destruição da criação saída das mãos de Deus. “Ele já cheira mal,” dizem os judeus, como para impedir Jesus de se aproximar do corpo; terrível advertência que vale para todo o universo, para toda a Vida. Deus é Vida e Doador de Vida, ele chamou o homem para esta realidade divina da vida, e eis “que ele cheira mal.” O mundo foi criado para refletir e proclamar a glória de Deus, e eis “que ele cheira mal”! No túmulo de Lázaro Deus encontra a morte, a realidade da antivida, da destruição e do desespero. Ele se encontra face à face com seu Inimigo que lhe arrebatou a criação, que era sua, para tornar-se o Príncipe. Nós que seguimos Jesus se aproximando do túmulo, entramos com ele na sua Hora, aquela que ele anunciou frequentemente como o apogeu e o cumprimento de toda sua obra. Neste curto versículo do Evangelho: “Jesus chorou,” é a Cruz que é anunciada, sua necessidade e seu significado universal. Compreendemos agora que é porque “Jesus chorou,” melhor dizendo porque ele amava seu amigo Lázaro, que ele tem o poder de o chamar à vida. A ressurreição não é a simples manifestação de um poder divino, mas antes o poder de um amor, o amor tornado poder. Deus é Amor e Amor é Vida, ele é criador de vida. . . É o Amor que chora sobre o túmulo e é o Amor também que dá a vida; lá está o sentido das lágrimas divinas de Jesus. Elas nos mostram o amor de novo à obra, recriando, resgatando e restaurando a vida humana presa das trevas: “Lázaro, sai para fora!...”

Eis porque esse sábado de Lázaro inaugura ao mesmo tempo a cruz como supremo sacrifício de Amor, e a ressurreição como seu último triunfo:

“O Cristo é para todos alegria, verdade, luz e vida, Ele é a ressurreição do mundo, nele o amor apareceu para aqueles que estão na terra, imagem da ressurreição, concedendo a todos o perdão divino.” (Kondakion do Sábado de Lázaro)

 Arquimandrita Placide (Deseille)



domingo, 30 de junho de 2019

Santo Profeta Eliseu.



Eliseu viveu no século IX a.C., e nasceu na aldeia de Abelamum, próximo ao Rio Jordão. Por ordem do Senhor, foi chamado ao serviço profético pelo Santo e Glorioso Profeta Elias [comemorado em 20 de julho].

Quando chegou o tempo do Profeta Elias ser levado aos Céus, ele perguntou a Eliseu o que gostaria que lhe fizesse antes de partir. Eliseu pediu convictamente por uma dupla porção da Graça Divina. Santo Elias disse-lhe que era um pedido de difícil realização, e que Eliseu saberia ter sido atendido caso visse Elias partindo. Enquanto caminhavam conversando, eis que surgiu uma carruagem flamejante que os separou. Eliseu, chorando, ficou com o manto de seu Mestre, que caiu do céu,, vindo a receber assim o poder e o dom profético de Elias.

Ele passou mais de 65 anos nesse serviço, sob seis diferentes Reis israelitas. Não temia nenhum príncipe e nenhum discurso conseguiu superá-lo. O Santo Profeta operou vários milagres. Dividiu as águas do Jordão; tornou as águas de uma fonte em Jericó aptas para serem bebidas; salvou os exércitos dos Reis de Judá e Israel no deserto, fazendo cair abundante chuva por meio de suas orações; salvou uma pobre viúva da fome por inanição fazendo surgir miraculosamente óleo em um vaso. Também ressuscitou o filho de uma senhora que lhe concedeu hospitalidade.

Eliseu previu a vitória do Rei Josias sobre seus inimigos, e pelo poder de suas orações realizou diversos outros feitos maravilhosos. O Santo Profeta morreu em idade avançada em Samaria. Um ano depois de sua morte, um cadáver foi atirado em seu túmulo, e quando tocou os ossos de Eliseu, retornou à vida.

O Profeta Eliseu e seu Mestre, o Profeta Elias, não deixaram livros, já que seu serviço profético era oral. São João Damasceno compôs um cânon em homenagem a Eliseu e em Constantinopla foi construída uma igreja em sua honra.

Juliano o Apóstata ]361-363] ordenou que as santas relíquias dos Profetas Eliseu, Obdias e João o Precursor fossem queimadas, mas elas foram preservadas por fiéis, e parte delas transferidas para Alexandria.

Evangelho segundo São João 17,11b-19



Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: «Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós.
Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura.
Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria.
Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo.
Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.
Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo.
Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade.
Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo.
Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade».


«Para serem um só, como Nós somos»


A Igreja possui a marca e a imagem de Deus porque tem a mesma atividade que Ele. [...] Deus trouxe todas as coisas à existência por meio do seu poder infinito, e contém-nas, reúne-as e circunscreve-as. Ele liga fortemente todos os seres, uns aos outros e a Si próprio, na sua Providência. [...]

A Santa Igreja terá sobre nós os mesmos efeitos que tem Deus, de quem é imagem. Numerosos, quase inumeráveis, são os homens, as mulheres e as crianças, e distintos uns dos outros, infinitamente diferentes pelo nascimento, os traços, a nacionalidade e a língua, o género de vida e a idade, as aptidões, os costumes, os hábitos, o conhecimento, a fortuna, o carácter e as relações. Mas todos nascem nesta Igreja e, por obra sua, todos renascem para uma vida nova, recriados pelo Espírito Santo.

A todos a Igreja deu [...] uma só forma, um só nome divino: ser de Cristo e ter o seu nome. Ela dá também a todos uma maneira de ser única, que não permite distinguir as numerosas diferenças que existem entre eles [...], devido à reunião de tudo nela. É por eles, seus membros, que absolutamente ninguém fica separado da comunidade, uma vez que todos convergem uns para os outros, todos estão ligados pela ação do poder indivisível da graça e da fé. Está escrito que todos têm «um só coração e uma só alma» (At 4,32) [...]; ser um só corpo formado por membros tão diversos é realmente digno do próprio Cristo, que é a nossa verdadeira cabeça (cf Col 1,18). O apóstolo Paulo diz: «N'Ele não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos são um só em Cristo Jesus» (Gal 3,28). [...] A Santa Igreja é, pois, feita à imagem de Deus, uma vez que realiza entre os crentes a mesma união que Deus realiza entre eles.



São Máximo
o Confessor (c. 580-662), monge, teólogo
Mistagogia, 1

sábado, 29 de junho de 2019

Evangelho segundo São João 17,20-26.



Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e disse: «Pai santo, não peço somente por eles, mas também por aqueles que vão acreditar em Mim por meio da sua palavra, para que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós e o mundo acredite que Tu Me enviaste.
Eu dei-lhes a glória que Tu Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade, e o mundo reconheça que Tu Me enviaste e que os amaste como a Mim.
Pai, quero que onde Eu estou, também estejam comigo os que Me deste, para que vejam a minha glória, a glória que Me deste, por Me teres amado antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não Te conheceu, mas Eu conheci-Te, e estes reconheceram que Tu Me enviaste.

Dei-lhes a conhecer o teu nome e dá-lo-ei a conhecer, para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles».

«Para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles»


O Salvador dirigiu a seu Pai esta prece pelos seus discípulos: «para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles»; e ainda: «que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós». Esta prece há de realizar-se plenamente em nós quando o perfeitíssimo amor com que Ele nos amou (1Jo 4,10) for o próprio movimento do nosso coração, em cumprimento desta prece do Senhor [...].

Isto acontecerá quando todo o nosso amor, todo o nosso desejo, esforço, procura e pensamento, tudo aquilo que vivemos e de que falamos, tudo o que respiramos, outra coisa não for senão Deus; quando assimilarmos, na alma e no coração, a unidade presente do Pai com o Filho e do Filho com o Pai – isto é, quando, imitando finalmente a caridade verdadeira, pura e indestrutível com que Ele nos ama, a Ele nos unirmos também por uma caridade contínua e inalterável, e a Ele estivermos tão ligados que a nossa respiração, o nosso pensamento e a nossa linguagem mais não sejam que Ele e só Ele.

 Alcançaremos assim, por fim, [...] o que o Senhor na sua prece desejava ver cumprir-se em nós: «que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós» e «Pai, quero que onde Eu estou, também estejam comigo os que Me deste».

A isto está destinado aquele que na solidão ora, a isto deve levar todo o seu esforço: à graça de possuir, já desde esta vida, a imagem da futura bem-aventurança, como uma antecipação, no seu corpo mortal, da vida e da glória do Céu.



São João Cassiano (c. 360-435)
fundador de mosteiro em Marselha
Conferências, n.° 10, 6-7; PL 49, 827

sábado, 18 de maio de 2019

Evangelho segundo São João 15,9-17.


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou,  também Eu vos amei. Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos.
Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».


São Matias, testemunha da ressurreição, escolhido por Deus
«Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos discípulos» (At 1,15ss.): Pedro, a quem Cristo tinha confiado o seu rebanho, movido pelo fervor do seu zelo e dado que era o primeiro dentro do grupo, foi o primeiro a tomar a palavra e «disse: Irmãos, é necessário escolher de entre [...] os homens que andaram connosco». Reparai como se empenha em que tenham sido testemunhas oculares; embora o Espírito Santo houvesse de vir depois sobre eles, dá a isso grande importância. «De entre os homens que andaram connosco, todo o tempo que o Senhor Jesus passou no meio de nós». Refere-se àqueles que viveram com Jesus e não aos que eram apenas discípulos. De facto, eram muitos os que O seguiam desde o princípio [...] «até ao dia em que nos foi levado para o alto; é necessário, pois, que um deles se torne connosco testemunha da sua ressurreição».
Não disse: testemunha de tudo o mais; mas só: «testemunha da ressurreição». Na verdade, seria mais digno de fé quem pudesse testemunhar: Aquele que vimos comer e beber, e que foi crucificado, foi Esse que ressuscitou. Não interessava ser testemunha do tempo anterior nem do seguinte, nem dos milagres, mas simplesmente da ressurreição. Porque todos os outros factos eram manifestos e públicos; só a ressurreição se tinha realizado secretamente e apenas eles a conheciam.


São João Crisóstomo (c. 345-407)
presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla,
3.ª Homilia sobre os Atos dos Apóstolos 

domingo, 21 de abril de 2019

GRANDES SEGUNDA, TERCA E QUARTA-FEIRAS SANTAS.






Esses três dias, que a Igreja chama de grandes e santos, têm, dentro do desenrolar da semana , uma finalidade bem definida. Eles situam as celebrações dentro da perspectiva do Fim, eles nos relembram o sentido escatológico da Páscoa. Muito frequentemente a semana santa é considerada como uma “linda tradição,” um “costume,” uma data importante do calendário. É o acontecimento anual esperado e amado, a Festa “observada” desde a infância, durante a qual a gente se encanta com a beleza dos ofícios, com o fausto dos ritos, e na qual a gente se ocupa de preparar a ceia pascal, que não é de menor importância. . . Depois, uma vez que tudo isto tenha acabado, nós retomamos a vida normal. Mas, teremos mesmo consciência de que “a vida normal” não é mais possível depois que o mundo rejeitou seu Salvador, depois que “Jesus ficou triste e abatido.. .,” que sua alma “ficou infinitamente triste até a morte. . .” e que ele morreu na cruz? Foram mesmo homens “normais” que gritaram: “Crucifica-o!” Homens normais que cuspiram nele e o pregaram na cruz. . . Se eles o odiaram e o mataram, é precisamente porque ele veio sacudir e desestabilizar sua vida normal. Foi mesmo um mundo perfeitamente “normal” que preferiu as trevas e a morte, em lugar da vida e da luz. . . pela morte de Jesus o mundo “normal,” a vida “normal” foram irrevogavelmente condenados. Ou, mais exatamente, o mundo e a vida revelaram sua natureza verdadeira e anormal, sua incapacidade de acolher a luz, o terrível poder que o mal exerce sobre eles. “É agora o julgamento deste mundo” (João 12:31). A Páscoa de Jesus significa o fim para “este mundo” e, desde então, ele está “no seu fim.” Este fim pode se estender por centenas de séculos, mas isto não altera em nada a natureza dos tempos em que vivemos, que é “o último tempo.” “O rosto deste mundo passa” (ICor. 7:31).

Páscoa significa “passagem”; para os judeus a festa da Páscoa era a comemoração anual de toda sua história, enquanto salvação, e da salvação enquanto passagem da escravidão no Egito à liberdade, do exílio à Terra prometida. A Páscoa era também a pré-fíguração da derradeira passagem, que conduz ao Reino de Deus. Ele, o Cristo, é o cumprimento da Páscoa. Ele completou a derradeira passagem, a da morte para a vida, deste “mundo velho” ao mundo novo, ao tempo novo do Reino. Ele tornou possível para nós esta passagem. Vivendo “neste mundo,” nós podemos já “não ser deste mundo”; quer dizer, estarmos livres da escravidão da morte e do pecado, participantes do “mundo que há de vir.” Mas, é necessário para tanto cumprirmos nossa própria passagem, condenar o velho Adão em nós mesmos, revestir o Cristo na morte batismal e ter nossa verdadeira vida oculta em Deus com o Cristo, no “mundo que há de vir.”..

A Páscoa não é, pois, mais uma comemoração, bonita e solene, de um acontecimento passado. É o próprio acontecimento manifestado, dado a nós, acontecimento sempre eficiente, que revela que o nosso mundo, nosso tempo e nossa vida estão no seu fim, e que anuncia o começo da vida nova. O papel dos três primeiros dias da semana santa é, precisamente, o de nos colocar diante do sentido último da Páscoa, de nos preparar para compreendê-la em toda sua amplidão.

Esta orientação escatológica, quer dizer, última, decisiva e final, é bem sublinhada pelo tropário comum a esses três dias:

“Eis que aparece o Esposo no meio da noite!
Feliz o cervo que Ele encontrar acordado,
infeliz o que Ele encontrar indolente.
Vigia, pois, ó minh'alma:
não te deixes vencer pelo sono!
À morte tu serias entregue,
para fora do Reino banida.
Mas, acorda e clama:
Santo, Santo, Santo és Tu, ó Deus!
pelas orações da Mãe de Deus, tem piedade de nós!”

Meia-noite é o instante em que o dia velho termina para dar lugar a um novo dia. Esta hora é assim para o cristão o símbolo do tempo em que vive. Por um lado, a Igreja está ainda neste mundo, com-partilhando de suas fraquezas e tragédias. Por outro, seu ser verdadeiro não é deste mundo, pois ela é a Esposa de Cristo e sua missão é de anunciar e revelar a chegada do Reino e do novo Dia. Sua vida é um velar perpétuo e uma espera, uma vigília orientada para a aurora desse novo Dia. . . mas nós sabemos o quanto nosso apego ao "velho dia,” ao mundo, com suas paixões e pecados, permanece ainda bastante tenaz. Nós sabemos o quanto ainda pertencemos profundamente a “este mundo.” Nós vimos a luz, nós conhecemos o Cristo, nós ouvimos falar da paz e da alegria da vida nova nele, e, entretanto, o mundo nos mantém ainda em escravidão. Esta fraqueza, esta constante traição ao Cristo e esta incapacidade de dedicar a totalidade do nosso amor ao único objeto de amor verdadeiro, são magnificamente expressadas no exapostilário desses três dias:

“Eu contemplo tua câmara nupcial,
ó Salvador meu!
Ela está toda enfeitada,
e eu não tenho as vestes para nela entrar.
Torna luminosa a roupagem da minha alma,
ó Tu que dás a luz,
e salva-me!”

O mesmo tema é ainda mais desenvolvido nas leituras do Evangelho destes dias. Primeiro, é o texto inteiro dos quatro evangelhos (até João 13:31), lido nas Horas (Prima, Tércia, Sexta, Nona), que mostra que a cruz é o apogeu de toda a vida de Jesus e de seu mistério, a chave para verdadeiramente o compreender. Tudo, no Evangelho, conduz a esta última “hora de Jesus” e tudo deve ser visto sob sua luz. Em seguida, cada ofício possui seu próprio pericópio de evangelho:

Na Segunda-Feira:

Nas matinas: Mateus 21:18-43 — a parábola da figueira estéril, símbolo do mundo criado para dar frutos espirituais e relutante em sua resposta a Deus.
Na liturgia dos Pré-santifícados: Mateus, 24:3-35 — o grande discurso escatológico de Jesus, os sinais e o anúncio do Fim. “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.”

Estes pericópios do evangelho são explicados e comentados na hinografia desses dias: os estiquérios (stykeroi), as triodes (cânones curtos de três odes cantados nas matinas) ao longo dos quais ecoa esta exortação: o fim e o julgamento estão próximos, preparemo-nos!

“Indo, Senhor, para Tua Paixão voluntária,
no caminho Tu dizias aos Teus apóstolos:
Eis que subimos a Jerusalém
e que o Filho do Homem será entregue,
segundo o que d'Ele está escrito.

“Vamos, pois, nós também, acompanhemo-lo,
o espírito purificado;
sejamos crucificados com ele
e morramos Nele para as volúpias da vida
a fim de vivermos com ele e de escutá-lo dizer:

“Eu não subo mais a Jerusalém terrestre para sofrer,
mas subo para meu Pai e vosso Pai,
para meu Deus e vosso Deus,
e eu vos farei subir comigo para a Jerusalém do alto,
no Reino dos Céus.”


Arquimantrita Placide (Deseille)


domingo, 7 de abril de 2019

Metropolita Amfilohije (Radovic).


A oração, para os Pais do Deserto, tal como a vida em geral, são inconcebíveis sem o jejum. Eles conhecem pela experiência pessoal aquilo  que tanto a medicina moderna como a psicologia evidenciam: a unidade de corpo e alma em todas as suas manifestações, quer dizer, a unicidade dos seres humanos. A alma vivifica, ou mata o corpo, o corpo age na alma, quer positiva quer negativamente. O homem por completo, a qualquer momento, está a participar, quer num estado particular ou em algum ato, do mal ou do bem. Portanto, não há desenvolvimento real sem o desenvolvimento da vida interior do homem, da mesma forma como não pode haver verdadeira vida espiritual sem a participação ativa do corpo. Jejuemos, irmãos, espiritualmente, jejuemos e fisicamente, convida a Igreja Ortodoxa seus fieis a cada ano durante a Grande Quaresma, indicando assim que o jejum nao significa apenas abstinencia de gordura nos alimentos, mas a abstinência de mas obras, maus desejos e pensamentos: o jejum corporal é essencial, tal como um meio auxiliar para uma luta mais eficaz contra as paixões, particularmente contra a paixao do pensamento orgulhoso, raiz de todo mal. O corpo, que participa juntamente com a alma no pecado, deve, juntamente com ela, participar tambem na virtude, no jejum do pecado, a fim de juntamente com a alma participar no receber dos dons de Deus, recebendo assim a Gloria de Deus. 




pelo Metropolita Amfilohije (Radovic)
traducao de monja Rebeca (Pereira)