A Igreja, como o ícone de Deus, é o único lugar onde a liberdade de ser “outro” representa santidade em si mesmo, pois que através de sua estrutura e missão salvífica ela expressa a liberdade de outridade (alteridade) – alteritas. Mantendo-se fiel como ela o faz tanto na Triadologia e na Cristologia, a liberdade de alteridade deve também se manter fiel para eclesiologia, onde os mesmos princípios ontológicos são aplicados. Esta é a razão pela qual falamos, primariamente de um ponto de vista teológico, da sinodalidade tanto da Igreja Ortodoxa como da Igreja Católica. Conceitos ortodoxos e católico- romanos de conciliaridade diferem um do outro mesmo apesar de derivarem da mesma tradição sinodal. Nosso creativo e profundo encontro, não obstante, é benéfico e até necessário se nos esforçarmos em cumprir sinceramente a petição da Oração do Senhor no Gêtsemani. Apesar das diferenças que existem tanto nas interpretações gerais e históricas de uma e mesma tradição conciliar não serem intransponíveis, o fato de superá-las torna-se assustador a menos que seja expressamente prosseguido através de diálogo teológico, donde deriva a eclesiologia. Primazia (ou primus) representa a conditio sine qua non da sinodalidade, mas o contrário também é verdadeiro. Apesar de sua relevância hoje, (em vista da preparação para o Grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa), nosso estudo sobre conciliaridade não se foca na evolução da conciliaridade na vida da Igreja. Um estudo próximo ao desenvolvimento histórico da Igreja já revela a mensagem ou idéia essencial a qualquer e genuína teologia de sinodalidade. Nosso interesse primário é os elementos eclesiológicos formando esta instituição. Tal aproximação facilita a compreensão da maneira com a qual a eclesiologia fundamental do sínodo permanece imutável apesar da adoção de novas expressões da unidade da Igreja. Na luz destas considerações teológicas, históricas e eclesiológicas, deve-nos estar claro quais diretrizes, relacionadas à instituição do sínodo, deve informar os Cânones da Igreja Ortodoxa no intuito de assegurar que tais conceitos fundamentais como comunidade, alteridade e liberdade permanecem colunas da vida da Igreja.
Dentre as mais essenciais colunas da Igreja está a Eucaristia, cuja natureza é fundamentalmente escatológica. Na Liturgia, vemos a Verdade do Reino de Deus. A Igreja nos provisiona janelas ao reino futuro através de nosso uso litúrgico dos ícones. Desde o começinho do Cristianismo, os ícones foram fundamentais para a teologia, principalmente a Cristologia. Apesar de os meios de expressão derivarem da natureza caída, iconografia refere-se a Verdade inexprimível pelas encorajantes relações pessoais com a Verdade; um ícone adequado cria uma relação pessoal verdadeira. Eis porque um ícone está indivisivelmente linkado com Amor: não podemos falar sobre Verdade sem Amor, e não podemos falar sobre iconografia que não nos conduz ao Amor, que para um cristão ortodoxo significa a Igreja, onde encontramos o outro em seu verdadeiro estado. Como São Justin (Popovitch) costumava dizer, “Em Igreja somos ensinados a ver (iconicamente) em cada homem nosso futuro (a) irmão (irmã) [tal como ele ou ela são] no Paraíso”. Lá, na Sinaxe (Assembléia) Eucarística, veremos e encontraremos Deus através de nossa comunhão com os outros. Logo, o ícone reúne (numa sinaxe) a comunidade que chamamos de Igreja. O ícone, assim, não é apenas um mero objeto que beijamos e veneramos, mas antes uma eterna sinaxe (assembléia) que existe em momemtos, movimentos e ações durante a Divina Liturgia. Fora da Igreja, não existe o Reino de Deus; dentro da Igreja, tudo é icônico.
A identificação da auto-semelhança de Cristo com Sua imagem conduz à afirmação de que a Ortodoxia é a Igreja e não uma ideologia. É uma aglomeração de pessoas e, particularmente, uma aglomeração Eucarística de ícones vivos. Isto é o que devemos enfatizar hoje: e não uma internet – on-line – ilusão virtual de comunicação, mas antes o ícone como comunicação visível e verdadeira do Reino; este deve ser o futuro da Ortodoxia, porque tal é o futuro que Cristo prometeu à Sua Igreja. Na Eucaristia, somos ensinados não somente a venerar e cumprimentar os ícones, mas também os outros membros da sinaxe (assembléia), não passando em branco pelos ícones vivos – as pessoas – antes cumprimentando-os e beijando-os. Assim, o ícone é verdadeiramente o método certo de olhar para o mundo. Somente esta aproximação icônica salvará a Ortodoxia do tornar-se uma organização secular conforme a imagem do mundo.
pelo Bispo Maksim Vasiljevitch

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