domingo, 2 de dezembro de 2018

O problema do mal: a escuridão não existe por si só.



"Nossa teologia cristã ortodoxa vê o mal não como uma essência primitiva que é co-eterna e igual a Deus, mas sim um afastamento do bem. O mal não existe em si mesmo e não foi criado por Deus. Nossa Igreja Ortodoxa rejeita o ensinamento gnóstico de que a totalidade do ser é composta de dois reinos que sempre existiram juntos: o reino da luz e o reino das trevas.

Essa escuridão não existe por si só, mas é simplesmente a ausência ou a falta de luz. O mal, de acordo com São Basílio o Grande, 'não é uma substância viva e animada, mas uma condição da alma que se opõe à virtude e que brota no preguiça por se afastar do Bem. Portanto, não contemple o mal de fora, e não imaginemos alguma natureza original da maldade, mas que cada um se reconheça como o primeiro autor do vício que está nele'.

Nada é maior do que Deus, incluindo o mal, e o mal resulta quando o livre arbítrio da criação de Deus é dirigido contra Deus e, assim, engendrando o mal.

Isto é precisamente o que aconteceu quando a estrela da manhã que levava a luz (Lúcifer), caiu da Fonte da bondade, e se tornou o Maligno, Satanás. Lúcifer, ao impor sua própria vontade, encontrou-se na escuridão. Como seu poder é baseado na falsidade, ele só pode nos influenciar convencendo as pessoas de que ele é tão poderoso quanto Deus. No entanto, seu poder é finito e a boa vontade acabará por triunfar no último dia.

Que Deus permita que o mal exista em primeiro lugar, é um mistério, pois as escrituras não explicam isso. No entanto, sabemos através das Escrituras que o amor verdadeiro deve se expressar em ação, e diante do mal e do sofrimento, um cristão é chamado à ação por amar a Deus e ao próximo. O mal torna-se então um simples problema prático, que o cristão encontra maneiras de aliviar. Como cristãos, somos encarregados de levar o amor e a bondade de Deus ao mundo por meio de nossas ações.

Santo Antônio do Egito disse: 'O diabo tem medo de nós quando oramos e fazemos sacrifícios. Ele também tem medo quando somos humildes e bons. Ele tem muito medo quando amamos muito a Jesus. Ele foge quando fazemos o Sinal da cruz.'

Com amor em Cristo,

Abade Tryphon".

sábado, 1 de dezembro de 2018

Evangelho segundo São Mateus 25,31-46.



Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença, e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’.

Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’.

E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’.
Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos.

Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber;
era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.
Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’.
E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’.
Estes irão para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna».

«Ao ver Maria a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-Se» (Jo 11,33)


Porque te chorarei, meu irmão que tanto amava e que me foste tirado [...]? Na verdade, a minha relação contigo não desapareceu, apenas se alterou completamente para mim: até agora, era inseparável do corpo, a partir de agora tornou-se inseparável dos sentimentos. Tu permaneces comigo, e permanecerás para sempre. [...] O apóstolo Paulo recorda-mo e põe uma espécie de freio à minha dor com as seguintes palavras [...]: «Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram, para não andardes tristes como os outros, que não têm esperança» (1Tess 4,13). [...]

Mas nem todas as lágrimas são um sinal de falta de fé ou de fraqueza. Uma coisa é a dor natural, outra a tristeza que resulta da descrença. [...] A dor não é a única a manifestar-se com lágrimas; também a alegria tem as suas lágrimas, também o afeto suscita lágrimas, a palavra rega o solo com lágrimas, e a oração, segundo as palavras do profeta, banha de lágrimas o nosso leito (Sl 6,7). Quando os patriarcas eram sepultados, o seu povo também chorava muito. As lágrimas são, pois, um sinal de afeto e não incitações à dor. Chorei, confesso-o, mas também o Senhor chorou (Jo 11,35); Ele chorou uma pessoa que não era da sua família, eu choro um irmão. Ele, num só homem, chorou todos os homens; e eu chorar-te-ei, meu irmão, em todos os homens.
Foi com a nossa sensibilidade que Cristo chorou, e não com a sua, porque a divindade não tem lágrimas. [...] Ele chorou neste homem que tinha «uma tristeza de morte» (Mt 26,38), chorou naquele que foi crucificado, que foi morto, que foi sepultado; chorou neste homem [...] nascido da Virgem.



Santo Ambrósio (c. 340-397)
bispo de Milão, Sobre a morte de seu irmão, § 6

O que pedir nas orações ?



"Peça apenas arrependimento em sua oração e nada mais, não peça por luzes divinas, nem milagres, nem profecias nem dons espirituais, mas apenas peça por arrependimento. 

É o arrependimento que vai trazer-lhe a humildade, a humildade vai trazer-lhe a graça de Deus, e Deus dará por Sua graça tudo o que você precisa para a sua salvação, ou qualquer coisa que você pode precise para ajudar outra alma" 



São Paisios o Athonita.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

São Mateus, Apóstolo e Evangelista (séc. I).

29 de Novembro de 2018 (CC) / 16 de Novembro (CE).




Mateus, também chamado de Levi, era filho de Alfeu, e morava na cidade de Cafarnaum. O Santo Apóstolo era um cobrador de impostos quando o Senhor o avistara em Cafarnaum e lhe dissera: “Segue-me. E ele se levantou, e O seguiu” (Mateus 9:9). Mateus preparou uma recepção para o Senhor em sua casa e, assim, deu ocasião para que o Senhor falasse aos convidados as verdades sobre a Sua vinda à Terra. 

Depois de receber o Espírito Santo, Mateus ainda pregou na Palestina por muitos anos e, durante este período escreveu o seu Evangelho, o qual fora redigido orginalmente em língua aramaica e depois traduzido para o grego. O texto aramaico não sobreviveu, mas muitas das peculiaridades linguísticas e histórico-cultural da tradução grega dão indicações do mesmo. Depois da Palestina saiu a anunciar o Reino para os sírios, partos, medos e etíopes e, nas terras da Etiópia teve o seu martírio. 

A Etiópia era uma terra habitada por tribos canibais detentoras de costumes e crenças primitivas. Após haver convertido alguns dos canibais para a fé em Cristo, Mateus fundou a Igreja e construiu um templo na cidade de Mirmena, estabelecendo ali o seu companheiro Platon como bispo, retirando-se logo após para a solidão da oração em uma montanha, onde passou a orar fervorosamente pela conversão dos etíopes. 

Um dia - enquanto orava - o Senhor lhe aparecera na forma de um jovem. Dera-lhe um cajado e ordenara-lhe que o tal fosse plantado às portas da igreja. O Senhor lhe dissera que o bastão se transformaria numa árvore que daria muitos frutos, e que de suas raízes fluiria uma corrente de água vivificante. 

Os milagres operados com o bastão atraíram a esposa e o filho do governador da terra, Fulvian, os quais eram atormentados por espíritos imundos, e em nome de Cristo, o Santo Apóstolo os curou. Este milagre converteu um grande número de pagãos ao Senhor. Mas o governador não queria que seus súditos se tornassem cristãos e que deixassem de adorar os deuses pagãos. Fulvian acusou o Apóstolo de feitiçaria e deu ordens para executá-lo. Assim, enviou soldados para prendê-lo. Os soldados enviados voltaram ao príncipe dizendo que tinham ouvido a voz de Mateus, mas não podia vê-lo com os olhos. O príncipe, então, enviou uma segunda guarnição. Quando eles se aproximaram do Apóstolo, este resplandecera uma luz celestial tão forte que os soldados não conseguiam olhar para ele e, cheios de medo, jogaram suas armas e retornaram. Então, o príncipe foi pessoalmente até Mateus para executar a prisão. Mais uma vez, o Santo Apóstolo irradiara uma luz tão intensa que o príncipe imediatamente ficara cego. No entanto, o Santo Apóstolo tinha um coração compassivo, orou a Deus, e o príncipe teve sua visão restaurada. 

Infelizmente, os olhos espirituais de Fulvian permaneceram cegos, prendeu Mateus e o submeteu a torturas cruéis. Depois mandou que se fizesse uma grande fogueira, na qual o Santo Apóstolo fora amarrado de cabeça para baixo para ser queimado vivo.  

Quando o fogo fora deflagrado, então, todos começaram a perceber que o fogo não feria São Mateus. Então Fulvian deu ordens para adicionar mais lenha na fogueira, e nada do Apóstolo ser atingido. Fulvian, estando sob grande frenesi mandou que se pusessem doze ídolos ao redor do fogo. As chamas, depois de derreterem os ídolos, se voltaram contra Fulvian. O etíope grandemente assustado virou-se para o santo com uma súplica por misericórdia; e pela oração do mártir a chama se apagou. Logo após este milagre, Mateus expirou e partiu para o Senhor, e o seu corpo permaneceu ileso. 

Fulvian arrependeu-se profundamente de seu ato, mas ainda tinha dúvidas pairavam em seu coração. Certamente, à semelhança do Faraó do Egito à época de Moisés, ele não descartava a possibilidade de Mateus ser um grande feiticeiro (pois esta era a cultura, a da feitiçaria, na qual estivera inserido durante toda a sua vida). Assim, ordenou que se pusesse o corpo de São Mateus em um caixão de ferro e o jogasse ao mar, pois Fulvian, para dirimir suas dúvidas disse que se o Deus de Mateus preservasse o corpo do Apóstolo na água, como Ele o preservou no fogo, então ele estaria certo de que o Deus anunciado por Mateus era o Único, e que somente a Ele se deveria adorar.  
Naquela mesma noite, o Apóstolo Mateus aparecera ao Bispo Platon em um sonho, e ordenara-lhe ir com o clero para a costa do mar a fim de encontrar seu corpo que se achava lá. Também Fulvian Justos e sua comitiva acompanharam o bispo até a costa do mar. O caixão transportado pelas ondas fora levado para a igreja construída pelo Apóstolo. Então Fulvian implorou perdão do Santo Apóstolo Mateus; logo após o bispo Platon o batizou, dando-lhe o nome de Mateus, em obediência a uma revelação Divina. 

Fulvian, assim como fizera São Mateus nos tempos da coletoria, abdicou do seu cargo de governador e se tornou um presbítero. Com a morte do bispo Platon, o Apóstolo Mateus lhe aparecera, exortando-o a se tornar o Chefe da Igreja Etíope. Tendo-se tornado um bispo, Mateus (Fulvian), entregou-se fervorosamente à pregação da Palavra de Deus, continuando o trabalho de seu padroeiro celestial. 

Diz-se do Apóstolo e Evangelista Mateus que ele nunca comeu carne, mas apenas vegetais e frutas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Evangelho segundo São Lucas 13,22-30.



Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’.
Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo, e tu ensinaste nas nossas praças’.
Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’.
Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora.
Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».

«Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus»


Nos últimos tempos (1Pe 1,20), Deus, na sua bondade misericordiosa, quis vir em socorro do mundo que perecia e decidiu que a salvação de todas as nações se faria em Cristo. [...] Foi por elas que Abraão recebeu outrora a promessa de uma descendência inumerável, não gerada pela carne, mas pela fé. E esta geração é comparada à multidão das estrelas do céu (Gn 15,5), porque do pai de todas as nações não é esperada uma posteridade terrena, mas celeste. [...]

Portanto, que «entre a totalidade das nações» (Rom 11,25), que todos os povos entrem na família dos patriarcas. Que os filhos da promessa recebam a bênção da raça de Abraão (Rom 9,8). [...] Que todas as nações da Terra venham adorar o Criador do universo. Que Deus não seja conhecido unicamente na Judeia, mas em todo o mundo, e que em toda a parte «o seu nome seja grande como em Israel» (Sl 75,2). [...]

Irmãos, instruídos nestes mistérios da graça divina, em espírito de alegria, celebremos o chamamento das nações. Demos graças ao Deus da misericórdia «que nos chama a tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu amado Filho» (Col 1,12-13). Como anuncia o profeta Isaías [...], «hão de invocar-Te nações que não Te conheciam; povos que Te ignoravam acorrerão a Ti» (55,5). Abraão viu esse dia e rejubilou (Jo 8,56) quando soube que os seus filhos segundo a fé seriam abençoados na sua descendência, isto é, em Cristo. Na fé, viu-se «pai de uma multidão de povos» e «deu glória a Deus, plenamente convencido de que Ele tinha poder para realizar o que havia prometido» (Rom 4,18-21).



 São Leão Magno, papa (?-c. 461). 3.ª homilia para a Epifania.

Cristo venceu o diabo...

Cristo venceu o diabo usando os mesmos instrumentos e as mesmas armas que o diabo usou para vencer. [...] Em vez de Eva, houve Maria; em vez da árvore do conhecimento do bem e do mal, a madeira da cruz; em vez da morte de Adão, a morte de Cristo.



+ S. João Crisóstomo, "De coemeterio et de cruce", PG, 49, 396.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Evangelho de São Lucas 14:25-35.



Ora, ia com ele uma grande multidão; e, voltando-se, disse-lhe: Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar. Ou qual é o rei que, indo à guerra a pelejar contra outro rei, não se assenta primeiro a tomar conselho sobre se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, estando o outro ainda longe, manda embaixadores, e pede condições de paz. Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo. Bom é o sal; mas, se o sal degenerar, com que se há de salgar? Nem presta para a terra, nem para o monturo; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Sobre as Três Renúncias


Cabe-nos agora falar das renúncias. Tanto a tradição dos padres como a autoridade das Sagradas Escrituras demonstram que são três renúncias que cada um de nós há de trabalhar com afinco para colocá-las em prática.

Mediante a primeira desprezamos todas as riquezas e bens materiais do mundo; mediante a segunda desprezamos os costumes, vícios e paixões da vida passada, tanto da alma como da carne; mediante a terceira afastamos o pensamento de todos os bens presentes e visíveis, para centrar-nos exclusivamente na contemplação das realidades futuras e no anelo do invisível. Que estas três renúncias devem ser praticadas lemos que o Senhor já ordenara a Abraão, quando disse: Sai da tua terra, de tua pátria e da casa de teu pai.

Primeiro ele disse: Sai de tua terra, isto é, dos bens deste mundo e das riquezas terrenas; em segundo lugar: sai da tua pátria, isto é, do modo de viver, dos costumes e vícios do passado, todas elas coisas tão estritamente vinculadas a nós desde o nosso nascimento, que se converteram em nossos parentes baseado em uma espécie de afinidade e consanguinidade; em terceiro lugar: sai da casa de teu pai, ou seja, de toda memória deste mundo e que se encontra debaixo do campo de observação de nossos olhos. E saindo com o coração desta casa temporal e visível, dirigimos os nossos olhos e nosso contemplar para aquela casa na qual habitaremos para sempre. O que cumpriremos quando, sendo homens e procedendo como tais, começarmos a militar nas fileiras do Senhor guiados não por objetivos humanos, confirmando com as obras e a virtude aquela sentença do bem-aventurado apóstolo: Nós, pelo contrário, somos cidadãos do céu.

Por este motivo, de nada nos adiantaria ter empreendido com toda a devoção de nossa fé a primeira renúncia, se não colocássemos em obra a segunda com o mesmo empenho e idêntico ardor. E assim, uma vez alcançada esta, poderemos chegar também àquela terceira renúncia, mediante a qual, saindo da casa de nosso primeiro pai, centramos toda a atenção de nossa alma nos bens celestiais.

Assim, mereceremos alcançar a verdadeira perfeição da terceira renúncia quando nosso espírito, não debilitado por contágio algum de estupidez carnal, mas purificado de todo afeto e apego terreno mediante um notável trabalho de acabamento, através da incessante meditação das divinas Escrituras e o exercício da contemplação, se houvesse transladado de tal modo ao mundo do invisível que, atento somente às realidades soberanas e incorpóreas, não perceba que está ainda envolto na fragilidade da carne e circunscrito a um determinado lugar.



São João Cassiano (séc. V)